Artigos, Bispos › 19/11/2021

Trabalhadores para a messe

No próximo dia 28 de novembro, quatro seminaristas serão ordenados diáconos na Arquidiocese de Porto Alegre. Primeiro grau da ordem sacerdotal, o diaconato pode ser permanente ou transitório. Este último caracteriza-se por um período, relativamente curto, em preparação à ordenação presbiteral. Neste ano tivemos vários homens que receberam a ordenação permanente frutos da escola diaconal. Graças a Deus, temos vocacionados a este ministério.

A vocação diaconal tem em Jesus o seu fundamento. O modo de ser, sentir e anunciar diante da multidão e do mundo é de compaixão, proximidade e envio em missão. “Vendo a multidão, Ele diz: ‘a messe é grande e os trabalhadores são poucos’” (Lc 10, 1-9). O Senhor envia os discípulos em missão. Livres, despojados, ricos de Deus. Partir para cuidar dos feridos, expulsar os demônios, levar a paz, anunciar o Reino de Deus. Neste contexto e na dinâmica de uma “Igreja em saída”, como pede o Papa Francisco, o diácono é missionário por natureza. Diaconia e missão não são nem duas faces da mesma moeda, é uma só. É missão-serviço e serviço-missão. A diaconia se fundamente no Senhor, na sua missão. Ele que veio para “servir e não para ser servido” é o mesmo que envia a anunciar o Reino. Diaconato é serviço na Igreja que em seu ser é missionária. Portanto, o diácono é missionário em seu ser também, como batizado e como ministro ordenado.

No seu múnus ministerial, o diácono exerce o serviço de proclamar a Escritura e exortar o povo. Do Senhor, recebe o mandato e, em seu nome, anuncia a Palavra. Ele participa da missão de ensinar e guiar a comunidade.

A diaconia é também serviço do altar. O cuidado da liturgia e da celebração como que aproxima o diácono do Senhor, do mistério da salvação. Em palavras simples, ele exerce o serviço de ajudar a comunidade a rezar mais e melhor. A viver a espiritualidade da liturgia e zelar para que a comunidade viva a centralidade da fé ao redor da Palavra e do mistério da eucaristia. Ao ministrar o batismo e assistir ao matrimônio – sacramentos que lhes são confiados – ele recebe a missão de inserir na comunidade novos filhos de Deus e testemunhar a sacralidade do amor matrimonial. É de seu ministério também celebrar as exéquias, alimentando a esperança no Ressuscitado e confirmar os irmãos no caminho de fé para a pátria celeste.

Ser diácono é ser homem de caridade. É o cuidado, sobretudo dos últimos. Nos atos dos apóstolos, é designada a eles a atenção às viúvas e aos necessitados. É um serviço para auxiliar os apóstolos. Chamados ao serviço do pão, do cuidado dos enfermos, dos órfãos, das viúvas. E não faltaram exemplos, como São Lourenço, que na história da Igreja se destacaram neste serviço. Chamo a atenção que não se trata de um aspecto do diaconato. Não! Diaconia tem algo a ver com “levantar poeira em apressar-se para servir”. Assim ensinava meu professor na Teologia. Há uma situação que precise de alguém? Ali está o diácono. Por isso, eu comecei a reflexão com o evangelho em que Jesus vê a multidão. Sente compaixão, chama os discípulos e os envia. Diaconia é ser a extensão do próprio Senhor que continua seu serviço. Prontos para servir, como Maria que partiu às pressas ao encontro de Isabel.

Ser diácono, permanente ou transitório, é ser missionário da Palavra, próximo das pessoas, homem de pontes, diálogo e da paz. É cultivar um coração semelhante ao de Jesus, capaz de sentir as dores do povo, os sofrimentos das famílias, os sonhos dos jovens, a sede de Deus da humanidade.  É saber suportar as perseguições, inclusive, pois não faltam os lobos sobre os quais Jesus já alerta. Ser diácono é, por fim, configurar ao Mestre, que se abaixa mesmo diante dos seus para lavar-lhes os pés. Cuidar do corpo do Senhor e cuidar do corpo do irmão, do rosto desfigurado, também pelo pecado humano. E para o cristão o serviço nunca é temporário. “Bem-aventurados, felizes sereis – diz Jesus – se puserdes em prática”.

O serviço é muito e árduo, mas é nobre e divino. A vocação diaconal é missão da Igreja, pela Igreja e para o mundo. E há alegria, claro. Esta é a promessa de Jesus: “Fiquem alegres porque os vossos nomes estão inscritos no céu”. Diácono é missionário, portador da alegria do evangelho.

Dom Adilson Pedro Busin, bispo auxiliar de Porto Alegre