Artigos, Bispos › 25/03/2022

Uma parábola de Mestre

Diante das críticas dos fariseus e mestres da Lei Jesus tem a oportunidade de manifestar a sua capacidade de Mestre que fala com sabedoria e ensina com amor, conforme o lema da Campanha da Fraternidade. Faz isto através de uma parábola, tradicionalmente conhecida como: “Filho Pródigo” ou “Pai Misericordioso”. Uma parábola fácil de ser memorizada, contada e encenada, mas quando chegamos na sua interpretação e na incidência sobre a vida cotidiana ela abre um horizonte amplo. Os ensinamentos magistrais que Jesus pôs nesta parábola faz com que os estudiosos bíblicos a chamem de “evangelho no Evangelho”.

A reflexão que segue resume parte da homilia feita na celebração eucarística presidida por Bento XVI, no dia 18/03/2007, na capela do presídio de “Casal del Marmo”, Roma. É um presídio juvenil semelhante ao CASE. Também era o quarto domingo da quaresma, portanto a liturgia seguia os mesmos textos bíblicos deste domingo.

Jesus como mestre vem para ensinar e amar, vem para nos tornar capazes de amar e, assim, capazes de viver. Qual é o segredo do amor, o segredo da vida? Na parábola do Filho Pródigo aparecem três pessoas: o pai e os dois filhos. Mas por detrás das pessoas aparecem dois projetos de vida bastante diferentes. Ambos os filhos vivem em paz, são agricultores abastados e, portanto, têm do que viver e a vida parece ser boa.

O filho mais jovem julga a sua vida tediosa, insatisfatória, cada dia precisa levantar cedo, fazer a oração da manhã, ir ao trabalho. É muita rotina. E lhe vem a ideia de que a vida é mais do que isto, deseja encontrar outra vida em que seja verdadeiramente livre, possa fazer o que lhe agrada; uma vida livre da disciplina e dos mandamentos de Deus, das ordens do pai e da rotina familiar. Gostaria estar a sós e ter a vida totalmente para ele e ao seu gosto. Toma a decisão e pedir toda a sua herança e a recebe e vai para um lugar distante.

Agora a sua ideia é liberdade, fazer tudo o que quer, ignorar as normas religiosas, libertar-se da disciplina da casa, fazer tudo o que lhe agrada, levar uma vida com toda a sua beleza. O texto bíblico resume o novo estilo de vida como “uma vida desenfreada”.

Num primeiro momento ele tem a certeza que finalmente alcançou a vida, sente-se feliz e livre. Mas depois, pouco a pouco, sente também o tédio e percebe que também no mundo “desenfreado” tem rotina. Aquilo que era sonho de vida e liberdade total, aos poucos, fica com nada, pois “tinha gasto tudo o que possuía”. O texto bíblico diz que a opção de vida o levou a um nível inferior a dos porcos, nem tinha acesso à comida deles.

Foi a oportunidade para rever seu projeto de vida, rever o conceito de liberdade. Assim começa o novo caminho no seu interior que vai amadurecendo e o faz voltar para reencontrar o que havia desprezado e jogado fora. Agora compreende que o trabalho, a disciplina diária cria a verdadeira festa e a liberdade. Os mandamentos não são prisão, nem restrição da liberdade, mas indicadores seguros do caminho da liberdade. Assim regressa a casa interiormente maduro e purificado. Agora compreendeu o que é viver.

A parábola revela o Deus Pai misericordioso. Também ajuda a compreender quem é o homem que não é um ser isolado, mas vive com os outros, para os outros e é livre. É um ser que toma decisões erradas quando tem compreensões erradas da sua liberdade, mas também tem consciência para rever as opções e retornar.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo