Vídeos › › 03/08/2021

Agosto: A Igreja a caminho

Pela Igreja e a sua renovação

Neste mês de agosto o Papa coloca a “Igreja” no centro da sua intenção de oração, dando ênfase a um tema delicado mas essencial: a reforma da Igreja à luz da evangelização. Mais especificamente, pede orações “pela Igreja, para que receba do Espírito Santo a graça e a força de se reformar à luz do Evangelho”.

O tema não é novo. Praticamente desde o início do seu pontificado Francisco colocou a reforma da Igreja como uma de suas prioridades. Na introduçãoda exortação apostólica Evangeliigaudium – na qual propõe algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo –, o Papa assim escreve: “decidi, entre outros temas, de me deter amplamente sobre as seguintes questões: a) a reforma da Igreja em saída missionária; b) as tentações dos agentes pastorais; c) a Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza; d) a homilia e a sua preparação; e) a inclusão social dos pobres; f) a paz e o diálogo social; g) as motivações espirituais para o compromisso missionário” (EG n. 17).

Esse se tornou de fato o projeto de pontificado de Francisco. Como primeira prioridade colocou a reforma da Igreja, da qual se ocupa todo o primeiro capítulo da Evangeliigaudium. Os grandes eixos administrativos – como a reforma da Cúria, a reforma financeira e a luta contra os abusos de menores –, encontram ainda hoje resistências, mas Francisco deu passos muito significativos rumo a uma “Igreja em saída”, como insiste. Uma das transformações mais importantes foi a abertura periférica da Igreja, especialmente por meio da nomeação de uma centena de novos cardeais, com sete consistórios desde 2013. No colégio configurado pelo Pontífice os europeus não são mais a maioria, algo que já havia acontecido em algum período, mas de modo mais leve e sem marcar nenhuma tendência como agora. A cada novo consistório o Papa surpreende criando cardeais alguns bispos desconhecidos e sobretudo “periféricos”, provenientes de pequenas realidades, distantes de Roma e das grandes metrópoles que sempre tiveram a prioridade.

Outro sinal claro da preferência de Francisco pelas minorias e os pobres são as suas viagens internacionais. Sempre motivadas pelo desejo de promover a paz e o diálogo, o Papa priorizou as periferias: pequenos países da Ásia, da África e do leste europeu, geralmente esquecidos ou colocados em segundo plano na lógica global guiada pela economia. Sua última viagem, ao Iraque, é exemplo claro.

As nomeações que tem feito ao longo do seu pontificado seguem essa mesma linha de raciocínio, sempre privilegiando a inclusão e a igualdade. Apenas para recordar algumas pequenas “reformas”, o Papa nomeou pela primeira vez na história um leigo como prefeito de um Dicastério pontifício (da Comunicação), assim como nomeou pela primeira vez mulheres em postos centrais como a direção dos Museus do Vaticano e na diretoria da Comunicação da Santa Sé, como já abordamos num artigo de outubro passado, quando falamos sobre “A mulher na Igreja”, você deve recordar. No início deste ano 2021 tivemos novo sinal, muito significativo: a nomeação da Ir. Alessandra Smerilli como subsecretária do Dicastério para o Desenvolvimento Humano, e a nomeação da religiosa francesa NathalieBecquart, com direito a voto, como subsecretária da importante instituição do Sínodo dos Bispos, criado em 1965 pelo Papa Paulo VI mas que recebeu novo impulso e reconhecimento com Francisco.

No entanto, o passo mais importante e difícil, e provavelmente por isso o Papa pede a nossa oração durante este mês, é a reforma da Cúria Romana. Regularmente Francisco defende a reforma no Vaticano e alerta para os perigos que a “rigidez” pode trazer para a Igreja Católica. São já famosos os seus discursos de Natal para a Cúria, onde a cada ano tenta explicar as reformas introduzidas e as que estão por vir. No ano passado, por exemplo, enfatizou que: “se quisermos de verdade uma atualização, devemos ter a coragem duma disponibilidade sem limites; há que deixar de pensar na reforma da Igreja como remendo dum vestido velho ou mera redação duma nova constituição apostólica. A reforma da Igreja é outra coisa. Não se trata de «remendar uma peça de vestuário», porque a Igreja não é simples «vestido» de Cristo, mas o seu Corpo que abraça a história inteira. Somos chamados, não a mudar ou reformar o Corpo de Cristo, mas a revestir com um vestido novo aquele mesmo Corpo, a fim de que resulte claramente que a graça possuída não vem de nós, mas de Deus: de facto, «trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso» (2Cor 4,7). A Igreja é sempre um vaso de barro, precioso pelo que contém e não pelo que às vezes mostra de si mesma” (Discurso à Cúria Romana, 21 de dezembro de 2020).

A reforma da Igreja à luz do Evangelho e da evangelização proposta pelo Papa prevê o fim da divisão entre Congregações e Pontifícios conselhos, o que dará igualdade aos organismos. O principal Dicastério não será mais a Doutrina da Fé, que no passado foi o Santo Ofício e antes disso a Santa Inquisição, mas sim a Congregação para a evangelização dos povos (que o Papa enfatiza ser “a primeira e mais importante tarefa da Igreja”), para o qual nomeou o cardeal filipino LuisAntonioTagle em dezembro de 2019. Prevê-se ainda a criação de um Dicastério para a Caridade do Papa, cuja função em parte é hoje exercida pelo chamado “esmoleiro pontifício”, atualmente o polonês Konrad Krajewski que em 2018 foi criado cardeal por Francisco. Enfim, há muito trabalho pela frente. Acompanhemos com fé e esperança todo esse processo, suportando o Papa com as nossas orações, especialmente durante este mês, como nos convida Francisco no seu vídeo.

Frei Darlei Zanon, religioso paulino