Artigos, Bispos › 13/01/2020

Vou fazer de ti luz das nações

A 1ª Leitura deste Domingo, tirada do Livro do Profeta Isaías (Isaías 49,3.5-6), nos fala da relação de Deus com o Seu Povo. Ela não se limita à posse de Deus e à correspondência fiel do povo, mas vai ao mais profundo da História da Salvação que, em boa síntese, é a História de Amor entre Deus e os homens. Na concretização deste Amor, Deus luta e procura meios para ser correspondido no amor. A missão dos profetas é esta mesma: ajudar o povo a corresponder ao amor de Deus. Neste sentido, o diálogo e a missão que Deus dispõe ao profeta não se reduz a um acomodamento ao serviço profético na condição de servo. O profeta é constituído luz das nações. Como luz das nações, ele entra no dinamismo de identificação com o próprio Deus, pois só será essa luz na medida em que souber estar intimamente unido à fonte da Luz que é Deus. Por outro lado, o profeta não é chamado a ser luz apenas para o povo de Israel, mas para toda a humanidade, porque a Salvação operada pelo Amor de Deus é para todo o gênero humano. A missão de Isaías será, séculos mais tarde, compreendida como antecipação da Luz que virá ao mundo na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

O texto da 2ª Leitura (1 Coríntios 1,1-3) parece não passar de uma saudação do apóstolo à comunidade de Corínto. Mas, a verdade, é que, nesta saudação, o apóstolo destaca o princípio básico que norteia o cristão a partir da “santificação em Cristo Jesus” acontecida no Batismo. O Batismo tem, como fim último, a participação da vida divina e, obviamente, a vida eterna. Mas é determinante saber que a vida batismal é assegurada pela luta contínua de viver como filhos de Deus, na santidade. Como tal, ser santos não é apenas uma questão de ideal ou de meta, mas de dinamismo pessoal que deve fazer parte do dia-a-dia, com a profunda consciência que, para isso, fomos chamados.

O Evangelho deste Domingo (João 1,29-34) alerta, a nós que estamos comumente habituados a ouvir na liturgia, esta expressiva afirmação de S. João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” o risco de não darmos valor a esta apresentação. Para os homens daquele tempo, terá sido uma novidade e, simultaneamente, uma antecipação de todo o mistério da vida de Jesus. Mas, para nós é importante compreender como o testemunho de João Batista é prenúncio da Redenção operada pela Paixão e morte de Cristo, o Cordeiro sem mancha levado ao matadouro como sacrifício de salvação. Na verdade, João Batista sabia perfeitamente que a sua missão era a de orientar a todos para o Filho de Deus, enquanto fiel testemunha da História salvífica de Deus. É este Cordeiro de Deus que, no seu mistério de vida terrena, permite à Humanidade libertar-se das trevas do pecado para reconhecer a Luz que Ele mesmo é. A vida de santidade a que somos chamados e à qual éramos exortados pelo apóstolo São Paulo, não pressupõe grandes acontecimentos, mas a correspondência clara ao amor oblativo deste Cordeiro de Deus que nos lava no Seu Sangue e que ilumina as nossas vidas com o Seu Amor.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen