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A água da vida eterna

Nossa sociedade criou grandes expectativas. O sistema que pouco a pouco foi sendo imposto pela cultura pós-moderna, nos disse ter as respostas para todas as nossas buscas e que poderia atender a todas as nossas necessidades. Era-nos assegurado que uma vida de felicidade completa, sem limites, estaria fundada na liberdade absoluta, especialmente em uma vida independente de Deus. Deus seria substituído pelo progresso tecnológico, que tornaria nossas vidas confortáveis, eliminaria as doenças e adiaria a morte. Nos ensinaram que uma vida plena residiria nas contas bancárias polpudas, no reconhecimento social, no sucesso profissional, no aplauso da multidão e nos “cinco minutos” de fama, proporcionada pela televisão, pela internet ou pelo número de seguidores e de curtidas no tic toc.

No entanto, a realidade que se impõe é a consciência de que todas as conquistas de nosso tempo não podem suprimir nosso anseio pela eternidade, pela realização plena, por “algo mais” que faz falta terrivelmente em nossa vida. Este é o sentimento de insatisfação que domina o coração e a alma de tantos. Há um “plus” de insaciedade, que atormenta e tira a falsa paz daqueles que vivem alicerçados em exterioridades.

A afirmação fundamental do Evangelho de hoje (João 4,5-42) é que somente a água fornecida por Jesus Cristo pode saciar completamente o desejo de vida e de felicidade do homem.

Queridos irmãos, não é verdade que, muitas vezes, mesmo nós cristãos, nos esquecemos dessa verdade de que só Jesus pode preencher completamente a nossa vida? Não é verdade que nós também nos deixamos dominar por um materialismo prático, por um princípio de vida fundamentado no consumismo, e na crença de que seremos mais ou menos felizes, dependendo das coisas que tivermos ou não tivermos?

Essa “água-viva” de que Jesus falou para a mulher samaritana nos lembra o Batismo. Para todos nós, esse foi o início de uma caminhada com Jesus. Foi quando recebemos em nós a graça do Espírito Santo que transforma, renova, nos torna “filhos de Deus”, membros vivos da Igreja, e nos conduz a uma vida plena e definitiva.

Contudo, corremos todos nós o risco de que o nosso compromisso com Cristo e com a Igreja seja algo do passado, esquecido e sem sentido. Ao contrário, deve ser uma realidade viva, concreta, que influencia a minha postura, os meus valores, as minhas escolhas.

O Evangelho de hoje nos diz que “a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade” (João 4:28) e contou ao povo sobre Jesus. Observemos também um detalhe do “cântaro”, do balde que a samaritana abandonou após o encontro com Jesus. Este “cântaro” significa e representa tudo o que nos leva a alcançar essas alegrias e satisfações passageiras, mundanas, limitadas, falíveis e incompletas da vida. Abandonar o “cântaro” significa quebrar todos os planos egoístas de felicidade e abraçar o verdadeiro e o único necessário para toda a vida.

É por isso que o Senhor nos desafia a estarmos prontos para abandonar nossos caminhos egoístas e incompletos para a felicidade e abrir nossos corações à graça do Espírito Santo, que Jesus nos deu para vivermos uma nova vida. Então a mulher samaritana, após encontrar o “Salvador do mundo” que trouxe a água que mata a sede da vida plena, não se trancou para desfrutar de sua descoberta; mas partiu para a cidade para contar a seus compatriotas que havia encontrado a Verdade.

Hoje somos convidados a assumir um ambicioso projeto quaresmal: renovar a nossa fé e levar os nossos amigos ao encontro de Cristo, para que também Ele sacie a nossa e a sua sede de felicidade. O Senhor não engana quem nele confia: quem bebe da água de sua graça viverá feliz e sentirá a necessidade de partilhar a sua felicidade com os outros.

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen