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A busca do Senhor pela fé

 

O Evangelho deste 2º Domingo da Páscoa (João 20, 19-31) foi escrito para aqueles que não presenciaram os feitos vividos pelos apóstolos, em relação a Jesus. É um texto dirigido a cristãos que não presenciaram os acontecimentos da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Vivendo entre judeus e pagãos, eles encontravam dificuldades em acreditar na ressurreição de Jesus. Ansiavam, como muitos de nós ainda hoje, por evidências tangíveis, por ver e tocar, a fim de comprovar se realmente o Senhor havia ressuscitado. Questionavam-se sobre a existência de provas que confirmassem sua presença viva e, se de fato fosse verdade, porque Jesus não se manifestava visivelmente, como ocorre hoje a nós.

João procurou transmitir às comunidades cristãs (e a nós) que o Ressuscitado possui uma vida que transcende nossos sentidos, algo que não pode ser observado com olhos humanos, mas que requer fé. Isso é válido inclusive para os próprios apóstolos, que, embora tenham tido a experiência de conviver com o Ressuscitado, também enfrentaram dúvidas em seu caminho de fé. Tomé se tornou o símbolo dessas lutas vivenciadas por todos.

O que aprendemos do Evangelho de hoje é que não se pode basear a fé no que é visível. A ressurreição não pode ser provada cientificamente. Aqueles que buscam evidências visíveis devem abdicar da fé. A verdadeira fé não se fundamenta em provas tangíveis, mas na certeza interior. Jesus disse: “Felizes os que creem sem terem visto”, porque a fé deles é mais autêntica, mais pura.

Diante do convite do Evangelho, cada um de nós tem o livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a fé em Jesus Cristo Ressuscitado, pois além da Palavra e do testemunho dos que nos transmitiram estes acontecimentos, não há outras provas.

É na inserção à vida da comunidade eclesial que podemos reviver a experiência dos apóstolos no dia de Páscoa.

Não é por acaso que as aparições de Cristo aos apóstolos ocorreram no domingo; que a experiência do Ressuscitado acontece com eles; que Ele se mostre com as mesmas palavras: “A paz esteja convosco!” e revela os sinais de sua paixão.

Isso reflete o que ocorre hoje no “Dia do Senhor”, quando a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia. O celebrante saúda os presentes com as palavras de Jesus: “O Senhor esteja convosco”, e a comunidade responde: “Ele está no meio de nós”. É nesse momento que Ele se revela vivo à sua Igreja.

Aqueles que se ausentam desses encontros, como Tomé, não conseguem experimentar a presença do Ressuscitado, não ouvem sua saudação e sua Palavra, não recebem sua paz e perdão, nem experimentam sua alegria ou recebem seu Espírito. Pior ainda, não se alimentam de seu Corpo e Sangue.

Quem, no dia do Senhor, fica em casa, mesmo que ore sozinho, pode ter a experiência de Deus, mas não do Senhor Ressuscitado, pois Ele se torna presente na comunidade reunida.

Tomé só conseguiu fazer sua profissão de fé no Senhor quando se colocou na comunhão com seus irmãos na fé. Isso nos é proporcionado também, a cada semana. E é na comunidade cristã, e através dela, que podemos testemunhar nossa fé.

É no seio da Igreja que podemos viver nossa fé, testemunhando a ressurreição de Cristo. Se a comunidade estiver unida em um só coração e em uma só alma, compartilhando tudo em comum e guiada pelo amor e generosidade, então podemos testemunhar que o Espírito do Cristo ressuscitado está conosco.

Aqueles que vivem apenas para si, que buscam apenas sua própria glória, mesmo que frequentem a Igreja, não testemunham a ressurreição de Jesus.

O verdadeiro sinal de nossa fé, fundamentada em Cristo, é o testemunho de amor e de fraternidade. A base mais sólida de nossa filiação divina, como nos diz a 2ª Leitura (1 João 5,1-6), são as obras de amor para com todos os irmãos.

A verdadeira fé jamais pode ser separada da vida.

 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen