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A Celebração dos Santos – 03

Nas reflexões anteriores do mês de junho já nos damos conta que o culto dos santos e santas começou lentamente na Igreja, a partir do segundo século, primeiramente com a celebração dos mártires, e depois foi se alargando. O culto primitivo era cristocêntrico, com características importantes: de louvor, de alegria, de vitória, de esperança. Com a transladação das relíquias inicia a universalização do culto e a mudança no sentido teológico.

Os santos não são meninos de recado, mas nos aproximam de Deus ou aproximam Deus de nós. Sua santidade intercede constantemente por nós. Percebemos também que os santos e santas do calendário da Igreja (beatificação e canonização) não são os únicos que vivem na plena santidade de Deus. Hoje queremos nos deter um pouco sobre a teologia do culto dos santos. O culto dos santos não pode ser concebido isoladamente, como algo em si mesmo, sem referimento para com Aquele que é “Santo e fonte de toda santidade” (Oração Eucarística II). Só entenderemos o sentido desse culto se o relacionarmos diretamente com os mistérios da nossa redenção. Podemos dizer que este culto adquire seu sentido a partir do Mistério pascal, pois os primeiros santos a serem considerados como tais foram mártires, aqueles que deram a vida, derramando seu sangue como o Senhor. Portanto, neles a Páscoa eterna já se tornou uma realidade plena: nasceram (“dies natalis”) para a nova e eterna vida com Deus. Através deles, Deus é glorificado e a Igreja é santificada, atingindo sua vocação mais profunda. Deus, no seu infinito amor, quis a pessoa humana participante de sua santidade, criando-a segundo sua imagem e semelhança. Assim se estabelece o grande sonho de Deus e a vocação fundamental do ser humano: tornar-se filho/a, santo/a como Ele é santo (cf. 1Pd 1, 16). A santidade, portanto, entendida como um chamado para identificação com Deus, em Jesus Cristo, é o desafio maior de todos nós. Estar unido a Deus é ser santo; afastar-se dele significa estar no pecado e perder a santidade. Por isso, após o pecado de Adão, foi preciso a intervenção do próprio Deus em Jesus Cristo para a remissão. Nele a santidade tornou-se novamente possível. O mundo foi recriado pela presença do Santo, que veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14). Da parte do ser humano se exige o ato de fé, de adesão à obra redentora (cf. Jo 3, 16-18). Na situação de santo e pecador, o ser humano vive um processo contínuo de santificação; vai se identificando com o Cristo da Páscoa, Aquele que amou sem medida, dando a vida por todos.

O santo não é exceção, mas modelo de processo normal da vida cristã: uma vida cristã que tem o desfecho coerente diante da obra da salvação de Cristo: “A santidade, pois, não é um luxo, uma exceção, um privilégio de alguns. É uma vocação de todo cristão” (A. Burin). Isto é motivo de júbilo, de vitória, de esperança, de louvor a Deus. Portanto, a vocação à santidade não é apenas para aqueles que praticam “virtude em grau heróico” e são elevados aos altares, como modelos e intercessores oficiais, mas para todos os batizados e batizadas em Cristo. Desta forma, o culto dos santos torna-se ação de graças da Igreja a Deus por ter tornado visível e concreta a maravilha da santidade em inúmeros de seus membros, graças à sua união sempre mais plena ao Cristo da Páscoa. O mártir ou confessor torna-se sinal privilegiado daquele amor que levou Jesus Cristo a dar a própria vida pelos irmãos na glorificação do Pai. A santidade, portanto, é identificação a Cristo, segundo o Evangelho. O santo dá testemunho de um outro – Cristo – e não de si mesmo, evitando que o culto dos santos e santas se transforme num culto de heróis. Senhor, fazei-nos santos como vós sois santo!

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul