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A Cultura do Encontro – É preciso virar a chave!

No coração do Pacto Educativo Global vislumbra-se o apelo à Cultura do Encontro. Trata-se de algo profético, num mundo tão fechado e ensimesmado. Proporcionalmente ao desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e informação assiste-se à desvinculação da pessoa. Estamos tão perto e tão distantes. Ilustres desconhecidos simplesmente vivendo em espaços comuns, mas cujas vidas encontram-se desconectadas, desligadas. Não nos conhecemos. Não nos importamos uns aos outros. É preciso virar a chave, dar um passo corajoso ao encontro do outro, dos outros.

Cultura, num sentido geral, pode-se entender como aquilo que se tornou consenso, aceitável para todos. Algo que se prende ao nosso cotidiano como algo natural, cuja reflexão nos escapa por considerarmos ‘normal’. Assim, normalizamos, isto é, tornamos norma o fato de que cada um deve lutar com as armas que possui para enfrentar esta vida. E mais, cada um precisa cuidar apenas de si mesmo, independentemente do fato de outros seres, semelhantes a nós, viverem na penúria ou em condições indignas da espécie por nós compartilhada.

Há, obviamente, os que percebem as inúmeras situações da atualidade, sem deixarem-se cooptar por essa tendência de naturalização das injustiças, das opressões contemporâneas de uma cultura individualista, hedonista e excludente. O Pacto pede que demos um passo à frente, promovendo ações que invertam a ideia reinante do ‘cada um por si’. Não somos seres independentes, e também não seria bom se fôssemos dependentes uns dos outros. Mas em tudo há o meio termo. Somos seres interdependentes. Necessitamos uns dos outros na justa medida para que não esbarremos no erro de perdermos o mais específico de nossa existência, que é a humanidade.

Grandioso e belíssimo trabalho da educação: educar para viver em comunhão. Educar para uma empatia que ultrapassa a simples caridade de dar um pedaço de pão a quem tem fome. Educar o menino para transformar o homem e os homens todos em companheiros na caminhada da vida. E nesta trajetória sentirem-se co-partícipes e corresponsáveis pelo presente e pelo futuro.

Para inverter essa chave que ora repousa sobre a seta do “meu”, do “eu”, sem considerar a beleza de uma vida em comunhão, cada educador (a) tem em suas mãos o importante e irrenunciável instrumento, que é seu testemunho de vida, seu olhar atento sobre cada estudante, garantindo-lhes, com sua forma de acolher cada um (a), a singularidade do seu ser. Quem descobriu o valor do outro, já não pode viver de outra forma senão numa busca constante de enriquecimento, pois percebe em todos algo de especial, único e irrepetível.

Conjuguemos, pois, no plural os verbos que promovem a vida, o encantamento e o sentido de existir. Do eu ao nós! Em cada aula, em cada topada pelos corredores das escolas e pelas estradas da vida, quem decide o lado em que a chave deve permanecer somos nós. “Todo dia eu encontro muita gente…” O que pensa? O que vive? O que sente? Você sabe? Somente no encontro sincero, acolhedor e fraterno teremos acesso ao coração, à vida do outro. Estará nascendo, então, uma nova cultura: a Cultura do encontro, do re-encontro…

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade