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A dor da doença e do abandono

 

Minha saudação a todos os irmãos e irmãs que acompanham a Voz da Diocese. Este domingo, 11 de fevereiro, é o Dia Mundial do Enfermo e o texto do Evangelho, narra a cura de um leproso. Conforme a Lei judaica, chamada “Lei de Moisés”, texto da 1ª Leitura (Lv 13,44-46), os leprosos eram considerados impuros e, por isso, deviam ficar isolados, “fora do acampamento” e da convivência com as pessoas. A maior dor que um leproso sentia era a de ser rejeitado pela sociedade e sentir-se condenado pelo próprio Deus.

Prezados irmãos e irmãs. O Evangelho descreve que um leproso, ao ficar sabendo da presença de Jesus, teve a coragem de romper com a lei judaica. Ele “chegou perto de Jesus” (Mc 1,40), e não dos sacerdotes. Confiando em Jesus, “de joelhos”, pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me” (Mc 1,40). Ele reconhece que o poder da cura que possa tirá-lo da marginalidade não está na religião judaica, e sim em Jesus. Trata-se de um grito de socorro, diante de uma completa rejeição e menosprezo. Ele, respeitosamente, não obrigou Jesus a curá-lo, pois disse-lhe: “Se queres…”. O leproso, confiando em Jesus, recorreu a ele, mas deixou que a decisão fosse do próprio Jesus. Jesus, portador da misericórdia de Deus Pai, diante da situação de marginalização da grande maioria do povo pobre e explorado, reagiu com a atitude da compaixão. O texto diz que Jesus, “cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: Eu quero, fica curado. E no mesmo instante “a lepra desapareceu e ele ficou curado” (Mc 1,41).

Os leprosos sofriam sua enfermidade duramente. Na realidade, não eram portadores da “lepra”, conhecida hoje por Hanseníase, mas pessoas afetadas por diversas enfermidades da pele. Por um lado, a medicina era precária ou quase inexistente e qualquer problema de saúde era sério. Por outro, o grande problema destes enfermos consistia na vergonha e humilhação de sentirem-se excluídos e evitados por todos. O grande drama era não poder casar, nem ter filhos, não poder participar das festas e peregrinações, mas ficar condenados ao isolamento.

De acordo com a tradição de Israel, “os coxos e cegos não podiam entrar na casa de Deus” (2Sm 5,8). Os leprosos eram separados da comunidade por temor de contágio e porque eram considerados “impuros”. A prescrição era cruel: durante todo o tempo em que durasse a lepra ele ficaria impuro e separado (Lv 13,45-46). Por isso, a maior angústia do leproso era pensar que talvez nunca mais pudesse retornar à sua comunidade.

Abandonados por Deus e pelos homens, estigmatizados por seus vizinhos, excluídos em boa parte da convivência, estes enfermos constituem, provavelmente, o setor mais marginalizado da sociedade. Mas, estão realmente abandonados por Deus ou têm um lugar privilegiado em seu coração de Pai? O dado histórico é inquestionável: Jesus dedica-se a eles antes que a quaisquer outros. Aproxima-se dos que se consideram abandonados por Deus, toca os leprosos que ninguém tocava, desperta a confiança naqueles que não têm acesso ao templo e os integra no povo de Deus tal como ele o entende. Estes precisam ser os primeiros a experimentar a misericórdia do Pai e a chegada de seu Reino. Sua cura é a melhor ‘parábola’ para que todos compreendam que Deus é, antes de qualquer coisa, o Deus dos que sofrem o desamparo e a exclusão.

O Papa Francisco, na Mensagem dirigida para este Dia Mundial do Enfermo disse: “Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de tudo, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos nós somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre. Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos, sobretudo, no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos” (Papa Francisco).

Caríssimos irmãos e irmãs. Que todos nós, inspirados nas atitudes de Jesus, na mensagem do Evangelho e nas palavras do Papa Francisco, possamos renovar nosso compromisso de cuidarmos ainda mais de nossas relações humanas, não deixando ninguém isolado ou abandonado, oferecendo nosso tempo e nossos cuidados para com todos, em especial, todos os que sofrem qualquer enfermidade.

Deus abençoe a todos e bom domingo!

 

Dom Adimir Antonio Mazali – Bispo Diocesano de Erexim