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A Era da indiferença

                                “[…] a indiferença com a sorte dos outros tende a sobrepor-se às antigas solidariedades.” (David Le Breton)

Já são tantas as classificações deste período em que vivemos, sem que nenhuma consiga estabelecer-se em definitivo. Pós-humano, hipermodernidade, sociedade líquida, sociedade do cansaço, sociedade da excitação para citar apenas algumas das adjetivações com as quais diferentes pensadores definem a atualidade, sem que, contudo, seja possível enquadrá-la em uma única definição.

Há uma dimensão a sobressair-se de modo escandaloso e, por que não dizer, decepcionante cuja consequência deriva em diminuir-nos e lançar-nos de volta à barbárie e que apela constantemente à uma compreensão supostamente “natural”, num período em que ninguém tem tempo para nada. Nem para si, nem para os outros. A indiferença pulverizou-se de tal forma que impede-nos de nos compadecermos ou ainda, minimamente, questionar-nos sobre a possibilidade de qualquer movimento de fraternidade e acolhida.

Já não se trata mais de observar ao nosso redor – com o mínimo distanciamento de nossos interesses e de nossas preocupações imediatas – pois a vida em sociedade adquiriu um novo significado diante do hedonismo imperioso, isto é, todos buscamos o prazer. E onde não há prazer não há porque ficar. Dessa forma, as relações são fluidas, os interesses efêmeros e a alegria esgota-se tão logo o efeito do álcool tenha passado.

Temos acompanhado a mídia diariamente relatando pessoas que parecem ter perdido a consciência, o bom senso e, sobretudo, desconhecerem ou ignorarem o valor da própria vida. Não é credível pensarmos que haja uma só pessoa que desconheça as possíveis – e prováveis – consequências advindas das festas clandestinas, das aglomerações e de todos os demais atos insanos de desobediência não apenas das normas, mas das orientações emitidas pelos profissionais de saúde. Assim, ignorando a possibilidade de outro pensar tê-la assim definido, tristemente constato estarmos vivendo a Era da Indiferença.

Viver ou morrer tornou-se indiferente. Evoluímos rapidamente no que diz respeito ao desinteresse pela vida. Há tempos já estávamos cursando graduação em indiferença para com os sofrimentos do próximo: o feminicídio, o preconceito, o tratamento desrespeitoso e desumano para com os idosos por um sistema que prioriza o capital, os sofrimentos das minorias em alcançar o essencial para sobreviver não eram problemas nossos. Agora a vida dos que estão perto de nós e a nossa própria estão em jogo, porque não somos capazes de controlar nossos impulsos, nossa vontade e nossa “liberdade”. Tudo tem que acontecer na hora que eu quero, independentemente das consequências.

Bem ensinou-nos Jesus que o amor ao próximo nada mais é do que uma decorrência do amor próprio. Há tempos deixamos de amar-nos imaginando tratar-se apenas viver a própria vida. Junto com a falta do reconhecimento e respeito à alteridade sufocamos nossa própria identidade, envolvendo-nos com o superficial. Agora vemo-nos descobertos por essa dura realidade de uma sociedade para a qual viver parece não ter significado, por isso põe em risco a sua vida e a vida dos outros.

Tornamo-nos humanos não apenas porque raciocinamos e aprendemos a falar, mas porque essas duas características permitem-nos comunicarmo-nos, isto é, entrar em acordo, viver, conviver, respeitar e cuidar uns dos outros. Benveniste, linguista naturalizado francês, resumiu de forma magistral o estreito vínculo que existe entre o homem e a linguagem ao dizer que “o homem está na língua”, ou seja, se sua comunicação não serve para ampliar os laços de fraternidade, para enriquecer a vida, para gerar fraternidade e amor pelo próximo de nada valeu-nos a evolução e muito menos este que ostentamos com tanto orgulho título de “homo sapiens”, porque na verdade sabemos, mas não pomos em prática o verdadeiro significado de humanidade.

Aos que ainda cremos ser possível resgatar o que há de humano em nós, resta-nos talvez um última, mas decisiva, tentativa de controlar nossos impulsos em atos concretos de amor a nós mesmos e ao próximo, tornando-nos solidários diante da dor que nos circunda, e que, assevero, só será vencida ao girarmos a chave que ora marca a seta da indiferença direcionado-a à solidariedade, nossa última, única esperança.

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade