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A pobreza de Cristo e a fome dos pobres

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! A Igreja Católica celebra o VIº Dia Mundial dos Pobres neste segundo domingo do mês de novembro. E a mensagem do nosso Papa Francisco nos recorda que “Jesus Cristo fez-Se pobre por vós” (cf. 2 Cor 8, 9). Neste período, a Igreja Católica no Brasil está celebrando o 18º Congresso Eucarístico Nacional, com o tema: “Pão em todas as mesas”, e o lema: “Repartiam o pão com alegria e não havia necessitados entre eles” (cf. At 2,45-47).

Individualmente ou como comunidade de fé, podemos ter a tentação de não nos sentirmos incluídos neste apelo profético do Papa Francisco, o grande motivador desta sábia proposta, de termos um dia específico para celebrar, como Igreja, povo de Deus a caminho da casa do Pai, o Dia Mundial dos Pobres. Não se trata de olhar o pobre sob a ótica da ideologia deste ou daquele partido, mas a partir do Evangelho, da dignidade da pessoa humana, conscientes de que, diante de Deus, todos somos necessitados. Muitas das realidades de pobreza no mundo são criadas e alimentadas pela pobreza ética e moral daqueles que conduzem os destinos políticos e econômicos das nações.

Como pessoas de fé, não devemos fechar os olhos diante da realidade, achando que assim não nos inquietará ou vamos nos sentir mais seguros, vivendo na indiferença, diante da dignidade ferida e desprezada dos irmãos. O “o Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis” (Papa Francisco). Não se pode considerar os pobres simplesmente como alvos de um trabalho voluntário, praticado uma vez ou outra, improvisadamente, embora este tenha valor humanitário e espiritual. Mas é preciso muito mais, pois a consciência social e moral da humanidade parece estar sendo anestesiada, tornando-se insensível diante dos que sofrem. Há gente que cresce, avança nas conquistas, adquire conhecimento acadêmico, elaborando entendimentos sobre o mundo e a vida, mas esquece suas raízes e permanece distante da dura realidade dos mais pobres.

“Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 201). Urge encontrar estradas novas que possam ir além da configuração daquelas políticas sociais «concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos» (Papa Francisco, Fratelli tutti, 169). A caridade, pela experiência da fé, e o sentido de partilha, pelo qualificado exercício da cidadania, têm força corretiva e formativa do caráter de cada pessoa. Contribuem ainda para que todos se percebam integrantes de uma coletividade, superando o individualismo egoísta. A pobreza convida cada pessoa a sair de certezas e comodidades que alimentam a mesquinhez e desgastam o valor essencial de ser altruísta. Sem a coragem audaciosa para erguer os pobres de seu estado de marginalização, com uma escuta amorosa e humilde do grito de quem sofre, não se dará rumo novo à sociedade, que continuará imersa nos esquemas de corrupção, nas manipulações e descalabros. Os cidadãos e cidadãs precisam de uma nova visão de vida, para vencer a miséria moral e a passiva conivência com todo tipo de injustiça, que tira a dignidade humana dos filhos e filhas de Deus.

+ Dom José Gislon, OFMCap. – Bispo Diocesano de Caxias do Sul