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Alegra-te Jerusalém!

 

Este 4º Domingo da Quaresma é conhecido como o domingo “Lætare” – alegra-te! – que é a primeira palavra da antífona de entrada da Santa Missa de hoje.

Somos convidados à alegria não apenas pelas palavras do cântico, mas também pela atenuação dos sinais de penitência usados na Liturgia quaresmal: a cor roxa dos paramentos se transforma em cor-de-rosa, flores aparecem no altar, os instrumentos musicais voltam a ser ouvidos. Por que essa pausa na rigidez quaresmal, esse aflorar de alegria em um tempo marcado principalmente pela penitência?

Busquemos a resposta nos textos da Palavra de Deus que nos são apresentados neste domingo.

Uma história, a história do povo de Israel, é tecida com infidelidades, apostasias, desprezo pelos desígnios do Senhor, perseguição e morte de seus profetas. É uma história que é de ontem, é de hoje e, afinal, é a história humana de todos os tempos. É uma história que continua se repetindo na vida das pessoas, das famílias, das nações… A consequência de toda essa desordem – como aponta o autor do Livro das Crônicas, que temos como 1ª Leitura hoje (2º Crônicas 36,14-16.19-23) – é que “eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não houve mais remédio.“. E assim aconteceu a destruição de Jerusalém, o exílio na Babilônia, enfim, um grande castigo de Deus para com seu povo! Babilônia, o lugar do exílio – localizada no atual Iraque – Jerusalém, destruição, – são, de certa forma, lugares e eventos tão presentes em nossos dias, nessas horas que estamos vivendo! Nosso mundo também é uma grande ruína: espiritual, humana, social. Quantos males nos afetam: fome, miséria, guerras, violências, desrespeito à vida humana com o aborto (agora incluído “constitucionalmente” na legislação francesa), a ideologia de gênero que pretende impor-se violando a Lei divina que criou homem e mulher, a equiparação de uniões ilegítimas como um “direito” e tantas outras desobediências contra a Lei de Deus.

No entanto, com o Senhor, com nosso Deus que é “clemente e compassivo“, a última palavra nunca é de abandono, perdição, ruína ou morte! Basta que o homem, desiludido, angustiado, oprimido, ouça o chamado do Senhor para “voltar“, para retornar, e o perdão, a libertação e o retorno à felicidade original estarão prontos e acessíveis. E é Ciro, o conquistador da Babilônia, um pagão, que liberta Israel e lhe dá condições de retornar: “Todo aquele que faz parte do povo do Senhor, que se ponha a caminho, e que Deus esteja com ele!” “Ponha-se a caminho!” Esta exortação de Ciro é para nós, para hoje. A Quaresma já está mais do que pela metade e nós? Estamos ainda parados? “Ponha-se a caminho!” É hora de empreender o retorno à casa do Pai! Hora do arrependimento, da Confissão Sacramental.

E ainda mais importante, porque, como São Paulo afirma na 2ª Leitura (Efésios 2,4-10), “Deus é rico em misericórdia“. A misericórdia, como lembra São João Paulo II, “é o amor que é mais forte do que o pecado“. Portanto, esse Senhor rico em misericórdia nos acolherá de braços abertos, de coração aberto! Não precisamos levar nada para pagar pela salvação: “somos salvos gratuitamente!” O apóstolo multiplica as expressões dessa salvação gratuita: “Estávamos mortos e Deus nos deu vida novamente“. “Ele nos ressuscitou com Cristo. Ele nos fez sentar nos céus com Ele. Ele quis mostrar a extraordinária riqueza de Sua graça“. Em suma, foi essa a bondade que Ele teve para conosco em Cristo Jesus!

Mas é o próprio Jesus Cristo, no diálogo com Nicodemos – como lemos no Evangelho da Missa de hoje (João 3,14-21) – que apresenta a explicação de todas essas riquezas diante de nossos olhos: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o homem que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna“. Aí está: toda essa generosidade de Deus só tem uma explicação – o Amor que Ele tem pelo mundo, por este mundo onde as pessoas vivem, amor por cada pessoa deste mundo, e onde Ele deseja que vivam felizes e, para isso, que a vida delas não termine, mas seja uma vida plena, uma vida eterna! “Assim Deus amou o mundo!” E aí está. Como não se alegrar o coração daqueles que acreditam neste Amor?

Por esta razão a Igreja hoje nos convida: “Alegra-te Jerusalém. Reuni-vos vós todos que a amais, vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações”.

 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen