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Amamos de verdade?

Depois do paradoxo das bem-aventuranças que meditamos no domingo passado, o evangelho deste domingo (Lc 6, 17-38) nos coloca um outro ainda maior: “Amai os vossos inimigos”, convidando-nos a assumir o jeito de amar de Deus.

A fala de Jesus é de uma beleza incrível e ao mesmo tempo assustadora: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica”.

Quem de nós, hoje, tem essa maturidade espiritual e controle emocional a ponto de oferecer a outra face? Humanamente falando, parece impossível, mas evangelicamente, é um sinal de verdadeiro amor, marcado pela gratuidade e misericórdia, do jeito que Deus ama e age conosco. Não foram poucos os cristãos que alcançaram tal maturidade. Retribuir ao mal com o bem é a proposta inovadora do Evangelho, o caminho para romper com o circulo da violência e chegar à paz.

Para convencer que isso é possível, Jesus acrescenta: “Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazei o bem aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim”.

Pode parecer um ideal muito alto ao comum dos mortais, mas não é. Jesus o propõe aos que querem ser seus discípulos. É verdade, todos temos um caminho longo a percorrer nesse sentido. Até uma simples correção pode nos deixar ofendidos e acabrunhados, magoados por longo tempo.

Tudo é tão claro e óbvio, perfeitamente compreensível que: amar quem nos ama não é difícil. Dar-se bem com os simpáticos e pensam como nós, acolher os que nos querem bem e nos tratam com amor, não exige muito esforço. Mas aceitar aquele birrento, arrogante, antipático, sempre do contra e insatisfeito, aí se manifesta a virtude e a força da graça – amor de Deus derramado nos corações dos que creem e que o buscam com sinceridade.

Jesus arremata: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordiosos!” Essa é a perfeição que Jesus nos pede: “amar os nossos inimigos, rezar por aqueles que nos odeiam…”.

Hoje, mais do que nunca, precisamos anunciar esse Evangelho se queremos ajudar o mundo a superar as polarizações, os conflitos, as violências que afloram de muitas formas. Só assim podemos abrir caminhos para a paz: menos armas (bombas e mísseis) e mais evangelhos.

Para refletir: Que impressão deixa na minha alma e coração esse texto do Evangelho? Como podemos viver, hoje, a mensagem que ele traz? Como seria o mundo se nós cristãos assumíssemos a proposta de Jesus de “amar os nossos inimigos”?

Textos bíblicos: 1Sm 26,2-7.12-13.22-23; Sl 102(103); Lc 6, 27-38.

Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório