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Das cinzas à vida nova

 

A Quaresma, período que antecede a Páscoa, começa na Quarta-feira de Cinzas. Um ato penitencial no início do caminho que nos levará à memória da Ressurreição de Cristo. É significativo que comece com cinzas, algo que parece quase “não vivo”, apesar da água e do fogo que marcarão a Vigília Pascal.

As cinzas usadas para assinalar a fronte dos fiéis são obtidas através da queima dos ramos de oliveira abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Durante a assinala-se a fronte e o ministro proclama para cada fiel: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15), que expressa, além do sentido penitencial, o aspecto positivo da Quaresma, que é um caminho de conversão, oração assídua e retorno a Deus – um caminho pascal.

Cinzas recordam algo passageiro, algo que, com um único sopro de vento pode desaparecer num único instante. A imposição das cinzas pode parecer um ritual distante da atualidade, quase obsoleto.  Mas, nesse gesto, é possível refletir sobre a nossa vida cotidiana.

A cinza é imagem do que é frágil, desprovido de valor e, na tradição bíblica, torna-se símbolo da condição humana: o homem e a mulher são moldados do pó da terra (Gn 2,7) e, depois de morrerem, para ele retornam ( Gn 3, 19).

A cinza aspergida sobre a cabeça é também um símbolo de luto, dor e arrependimento: o mesmo acontece com Davi e com os habitantes de Nínive; Jó senta-se sobre as cinzas, em sinal de sua dor ( Jó 2, 8);  Ezequiel, em sinal de penitência, rola-se nas cinzas; O Salmo 102, 10, como expressão de dor, fala em comer cinzas como se fossem pão.

A celebração das Cinzas surgiu por causa da celebração pública da penitência nas origens do cristianismo. Era um rito que iniciava o caminho de penitência dos fiéis que seriam absolvidos dos seus pecados na manhã da Quinta-feira Santa.

Por volta do século X, com o declínio da penitência pública, toda a comunidade cristã passou a substituir espontaneamente os pecadores públicos, recebendo a imposição das cinzas e vivendo o tempo da Quaresma como um tempo de conversão.
A liturgia católica preservou este uso e, na celebração eucarística do início da Quaresma, propõe o rito de bênção e imposição das cinzas, que é feita sobre a cabeça: lugar da dignidade do homem e da mulher, renovada definitivamente na Páscoa de Cristo.

O Papa Francisco, na quarta-feira de cinzas de 2023, disse: “A Quaresma é o tempo favorável para regressar ao essencial, despojar-nos daquilo que nos sobrecarrega, para nos reconciliarmos com Deus, para reacender o fogo do Espírito Santo que habita escondido por entre as cinzas da nossa frágil humanidade. Regressar ao essencial. É precisamente o rito das cinzas que nos introduz neste caminho de regresso, fazendo-nos dois convites: regressar à verdade de nós mesmos e regressar a Deus e aos irmãos”.

A mensagem da cinza é, portanto, clara: do pó do arrependimento renasce uma nova vida; da penitência, a alegria do perdão.

 

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria e Presidente do Regional Sul 3