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Deus saboreia-se, Deus é sabor

As reflexões que seguem, contém o contexto do Mês da Bíblia, que tradicionalmente vivemos no mês de setembro.

“Aproximei-me do anjo e pedi-lhe que me desse o livro. Ele disse: “Toma-o e come-o”! Esta é uma passagem do Livro bíblico do Apocalipse, que ilustra bem a nossa necessária relação com a Bíblia, o texto sagrado que contém a Palavra de Deus. Entre o “ler” e o “comer”, a Bíblia sugere uma afinidade que não fica só pela metáfora. Literalmente, escreve o grande e penetrante pensador e poeta português, Cardeal José Tolentino Mendonça; “Bíblia é para comer. É odorosa, recôndita, vasta como a mesa celeste, íntima como a mesa materna, grata ao paladar, engenhosa, profusa, profícua. Descreve os copiosos bosques profanos e as ofertas alimentares sagradas, recria ascéticos desertos e o deleite dos palácios, conta com a esporádica caça e os pastos cevados, com as comidas quase triviais do caminho e os banquetes há muito anunciados. Não é insólito que se olhe atentamente para a cozinha da Bíblia. Ou que se arrisque dela uma tradução, uma transposição, não de vocábulos, mas de sabores”.

Se atendermos ao extenso volume das prescrições culinárias presentes na Bíblia, não nos parece nada bizarro que se fale, a propósito dele, de uma autêntica “teologia alimentar” ou se refira ao texto sagrado judaico-cristão como um esplêndido catálogo de receitas. De fato, a revelação bíblica também se aprende “saboreando”. E a sua leitura constitui uma minuciosa iniciação aos sabores: ao escondido sabor do “leite e mel” ao sabor do “trigo tostado”, ao motivo do “pão ázimo” ao riso iluminado despertado pelo “manjar pascal”.

O Livro do Êxodo fala do “maná”, o alimento que Deus fez chover do céu (“caía do céu com o orvalho da noite”) para permitir ao seu povo sobreviver na longa travessia do deserto, depois da saída do Egito em busca da Terra Prometida. O livro da Sabedoria, falando sobre o maná, escreve: “Deste ao teu povo um alimento dos anjos, enviaste-lhe do céu um pão, sem esforço deles, um pão de mil sabores, e adaptado a todos os gostos”. O modestíssimo maná, enviado por Deus, era o “pão de mil sabores”, o que mostra o amor de Deus atingindo o paladar. Esse não é indiferente ao amor de Deus, como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor.

Saborear Deus! Esta é também a proposta que nos faz o Saltério. Os salmos são orações que acompanham o corpo, o tempo, a surpresa, a dor e a delícia de ser. Aquilo que cada um vive é o ponto de partida para a relação com Deus. A oração bíblica precisa mostrar as linhas de fogo da vida. Só assim ela pode ser aprendizagem de Deus. Não é de se admirar, por isso, que dentre as passagens bíblicas que se referem ao sabor e ao degustar, o Livro dos Salmos ocupe um lugar tão especial.

O salmo 27 diz: “Uma só coisa peço ao Senhor e ardentemente a desejo: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida para saborear o seu encanto…”. Quando é que saboreamos? Quando o nosso corpo contempla; quando, todo concentrado, ele observa, surpreende-se, avizinha, entreabre o segredo, deixa essa espécie de epifania revelar-se. O sabor é sempre uma forma de intimidade que supõe o contato profundo.

A experiência de Deus não é fundada numa abstração, mas numa relação vivida, constatada: a procura tem resposta, a obra de libertação “de todos os meus temores” acontece. Desse modo, o espantoso desafio lançado pelo salmista no Salmo 34, versículo 9, não é temerário nem em vão. Ele sabe em quem colocou a sua confiança e firmemente ancorado diz: “Saboreai e vede como o Senhor é bom; feliz o homem que nele confia”. Por que saborear? O sabor revela, ilumina, dissemina-se por dentro de nós até tornar-se vida. Deus saboreia-se, Deus é sabor!

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas