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Escutar e discernir para seguir

 

Estimados irmãs e irmãs em Cristo Jesus! Escuta e seguimento são as palavras chaves das leituras bíblicas deste domingo. A história da vida e vocação de Samuel (Sm 3,3-10.19) é um dos mais bonitos relatos da Bíblia. Ana, sua mãe, era uma mulher estéril e sofria todas as consequências da sua condição perante a sociedade. Porém, tinha muita fé e confiança em Deus. E esta mulher sofrida a Deus um dia fez um pedido: se tivesse um filho, ela o entregaria ao serviço de Deus.

Tendo sida atendida por Deus, Ana não esqueceu da sua promessa. Levou o pequeno Samuel ao templo e o entregou aos cuidados do sacerdote Eli. Num tempo de trevas e incertezas, no coração da noite a palavra de Deus foi dirigida a uma criança, seguindo a lógica da pequenez e da insignificância, assim tão peculiar na ação divina. Samuel é tão pequeno, que não é ainda capaz de reconhecer, sozinho, a voz do Senhor. Precisará da ajuda e da mediação do sacerdote Eli para poder compreender aquilo que Deus quer dele. “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: Senhor, fala que teu servo escuta”. Eli indica o que fazer, mas não substituiu Samuel no fazer.

O texto do Evangelho segundo João (Jo, 1,35-42) nos traz a figura de João Batista, que estava com dois dos seus discípulos, e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o cordeiro de Deus!”. Ouvindo estas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. João Batista tinha consciência da sua missão, não segura para si os próprios discípulos, mas vendo Jesus passar, indica o verdadeiro Mestre, a quem eles devem seguir.

A pergunta que Jesus faz aos discípulos – “O que estais procurando?” – provoca a sede deles em segui-lo: “Mestre onde moras?”. Jesus não dá uma resposta com palavras, mas faz um convite: “Vinde ver”. A hora do encontro com Jesus, que se transforma num permanecer com Ele, numa comunhão de vida, fica gravada na memória dos discípulos.

Estimados irmãos e irmãs! O caminho do encontro com o Senhor está ao alcance de todos nós, mas nós também precisamos, muitas vezes, de alguém que nos ajude neste itinerário, como fez Eli com Samuel, e João Batista com seus discípulos. Esse caminho parece feito pelo homem, mas na realidade a iniciativa pertence sempre a Deus. É Jesus, por exemplo, que se dirige aos dois discípulos, fazendo a pergunta que os faz tomar consciência da vida nova, que estavam para começar.

A alegria por ter encontrado o Senhor não deve ser escondida, mas partilhada, como fez André. Depois de ter encontrado o Messias, ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão, e lhe disse: “Encontramos o Messias”. Mas André foi além, não deu apenas a boa notícia, virou as costas e foi embora. Ele quer que seu irmão também encontre o Messias, isto é, encontre a salvação, e o conduz a Jesus. Ele ajudou Pedro a encontrar Jesus.

Desse momento em diante, para os dois discípulos, para Pedro e para todos os batizados em Cristo Jesus, começa a responsabilidade e o caminho pessoal, que ninguém pode delegar aos outros, e ninguém pode pretender fazer pelos outros. Mas podemos sim, com o nosso testemunho de vida, e através da ação missionária, ajudar as pessoas a encontrarem Jesus. As palavras, que na Sagrada Escritura fazem referência a Samuel, são praticamente um critério da condição do discipulado: “Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixou cair por terra nenhuma de suas palavras” (1Sm 3,19).

 

Dom José Gislon – Bispo Diocesano de Caxias do Sul