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Fraternidade e Fome

Na próxima quarta-feira, iniciaremos a Quaresma, um tempo favorável para a conversão. A nossa conversão quaresmal deve se desenvolver como realização da vontade de Deus de modo pessoal e interior, mas também comunitário e social. Como Deus, a Igreja sonha um mundo justo e fraterno, em que todos tenham vida “e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Todos os anos, neste período, temos a Campanha da Fraternidade, que nos ajuda e perceber, em nossa realidade, as situações de pecado. Assim, a cada ano, recebemos um convite para viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade em espírito de conversão pessoal, comunitária e social.

Na Campanha da Fraternidade deste ano teremos como tema: “Fraternidade e Fome”. Somos convocados a refletir sobre a realidade da fome que voltou a ser cenário real em muitas famílias. O texto base da Campanha menciona várias dimensões da fome, não só de alimento, mas também fome de paz, fraternidade, verdade, concórdia e tudo o que nos humaniza. Na pandemia, quando não podíamos ir às igrejas para comungar, nós também sentíamos fome do Pão do céu.

Milhões de brasileiros e brasileiras experimentam a triste e humilhante situação de não poder se alimentar nem dar aos seus filhos e filhas o alimento indispensável a cada dia. Por isso, a CNBB apresenta, pela terceira vez, o tema da fome para a Campanha da Fraternidade (1975, 1985 e 2023).

O objetivo desta campanha é “sensibilizar a sociedade e a Igreja para enfrentarem o flagelo da fome, sofrido por uma multidão de irmãos e irmãs, por meio de compromissos que transformem esta realidade a partir do Evangelho de Jesus Cristo”.

O evangelista Mateus narra que Jesus teve compaixão da multidão faminta (Mt 14,14-21) e orientou os discípulos que lhes desse de comer. No primeiro momento os discípulos queriam que os famintos resolvessem seu problema. Jesus lhes abre os olhos e os corações para que compreendam que a mudança da realidade começa com eles e aponta para a necessidade de agir conjuntamente, ainda que as dificuldades sejam grandes e os recursos pequenos.

Quando o ser humano não encontra o necessário para alimentar a si e sua família surge um questionamento quanto a forma de organização da sociedade. A fome é um dos resultados mais cruéis da desigualdade. Afeta inicialmente os mais necessitados, mas atinge a todos, porque inevitavelmente uma sociedade de famintos será uma sociedade violenta. Esta é a razão pela qual o Papa Francisco, afirma que “não há democracia se existe fome”.

Que esta Quaresma seja vivida em forte espírito de solidariedade. Que saibamos encontrar soluções criativas para a superação da fome, seja no nível mais imediato, assistencial, seja no nível de toda a sociedade. Se trabalharmos para resolver o problema da fome poderemos ouvir de Jesus a desejável expressão: “Vinde (…) eu estava com fome, e me destes de comer; todas as vezes que fizestes isso ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,34.40). Abençoada Quaresma e intensa Campanha da Fraternidade!

Dom José Mario Scalon Angonese – Bispo de Uruguaiana