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Jovens para um novo Brasil

As expressões “crise econômica” e “instabilidade financeira” passaram a ser usadas para impor medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. Sob o pretexto de que a economia está em crise, e que, por isso, fazem-se necessárias medidas austeras para a sociedade, o mercado determina o que a política deve executar e a sociedade, suportar. Segundo W. Benjamim, o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto, cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.

Deus não morreu, ele se tornou dinheiro. Diante do fator crise, se propaga a necessidade de salvar a economia, custe o que custar. Não importa se pessoas morrem de fome, sem assistência médica, segurança e educação. Não importam as relações sociais e familiares. Importa que o mercado seja preservado e que a saúde das instituições financeiras conserve sua solidez. Não importa a que preço!

Despontam no horizonte as próximas eleições para os diversos cargos eletivos da República. No entanto, não são apresentadas indicações confiáveis para um projeto de nação que privilegie a vida, sobretudo dos mais pobres. Não se apontam caminhos para a superação dos altos índices de desocupação e que atinge a significativa cifra de 27 milhões de pessoas. Não são apresentadas propostas de melhor distribuição da renda. Não são conhecidos projetos viáveis para a superação da violência que impera na cidade e no sertão, no campo e no cerrado. Não surgiram, até o momento, propostas para um mutirão em prol de um processo educativo que coopere efetivamente para preparar os jovens para a vida e não simplesmente para o mercado de trabalho.

O que se delineia são conchavos em prol de um maior rigor, inclusive com a liberação do uso de armas, como caminho para superação da violência. Preparam-se acordos realizados nos bastidores tendo em vista a ocupação do poder com seus possíveis “benesses” em vantagem própria. Constatam-se combinações espúrias propondo circo e pão para as multidões, a fim de acalmar ânimos. Há um mal-estar no ar, marcado pelo desencanto e pela desconfiança. Há também expressões de indiferença. Estes são sinais preocupantes.

Vivemos um estado de exceção. É que a crise se tornou a regra. Isto se expressa, por exemplo, pelo controle por parte do Estado dos dados biométricos, câmeras, cartões de créditos, celulares de todos os cidadãos. Quando casas, prédios, praças públicas, estradas passam a ser controladas por tecnologias de todo tipo, não se cultiva mais a privacidade, mas se vive numa prisão. O 11 de setembro de 2001 e a crise financeira mundial de 2008 poderiam ter sido ocasião para a implementação de um modo distinto de fazer política, desenvolver uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira. Entretanto, o que se percebe é o arrefecimento de um egoísmo míope e limitado que, prescindindo do bem comum, exclui de seus horizontes a preocupação não só de criar, mas também de distribuir a riqueza e de eliminar as desigualdades.

As recentes denúncias da corrupção, que impregna as diversas instâncias da sociedade, poderiam também servir para fazer despertar um novo modo de fazer política e de conduzir a economia. No entanto, não é isto que observamos nas manifestações de algumas autoridades políticas, econômicas e empresariais. Oxalá jovens desejosos de cooperar na construção de uma sociedade mais justa se sintam atraídos para a atividade política. Que a sociedade lhes concede a oportunidade de mostrar que é possível construir um Brasil mais justo e fraterno.

Dom Jaime Spengler – Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre