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O Domingo

 

“O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Deuteronômio 5,12-15, Salmo 80, 2 Coríntios 4,6-11 e Marcos 2,23-3,6). Os textos bíblicos proporcionam a reflexão sobre o significado do domingo para os cristãos, partindo do sábado da tradição judaica. Os elementos fundamentais em ambas as tradições são convergentes.

“Deus disse a Moisés: Moisés, eu tenho na minha tesouraria um dom precioso que se chama sábado e quero presenteá-lo a Israel”. Esta definição rabínica de sábado revela a veneração e o amor de Israel pelo sétimo dia. Muitos textos do Antigo Testamento abordam a importância do sábado. No Novo Testamento Jesus tem vários momentos de diálogo e debates sobre o tema, principalmente com os fariseus. Se por um lado, as prescrições bíblicas sobre o sábado eram claras, por outro lado a visão legalista distanciava do objetivo do sábado.

Na solenidade de Pentecostes de 31 de maio de 1998, São João Paulo II escreveu a Carta Apostólica Dies Domini – O Dia do Senhor – para ensinar os católicos sobre a santificação do domingo. Recorda que desde os tempos apostólicos e em toda a história da Igreja o domingo sempre mereceu uma atenção privilegiada devido a sua conexão fundamental com o núcleo fundamental da fé cristã que é a Páscoa. A carta do papa é dividida em cinco capítulos onde cada um deles recorda um aspecto da compreensão da Igreja sobre o domingo. Para ter a visão global é preciso considerar os cinco aspectos: É o Dia do Senhor no qual se celebra a obra do criador; é o Dia de Cristo para celebrar Jesus ressuscitado e o dom do Espírito Santo; é o Dia da Igreja no qual a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia, alma do domingo; é o Dia dos Homens para o repouso, a solidariedade e a convivência alegre e; por fim, é o Dia dos Dias que aponta para o sentido do tempo, não somente terreno, mas também para a eternidade.

Os cinco aspectos revelam claramente que a importância e o significado do domingo têm um valor antropológico, isto é, fala sobre a natureza humana. Prescreve o Deuteronômio: “O sétimo dia é o sábado, o dia do descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem algum de teus animais, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades, para que assim teu escravo e tua escrava repousem da mesma forma que tu”.

No dia 03 de julho de 321, o Edito de Constantino tornou lei civil no Império Romano que no “dia do sol”, os juízes, os habitantes das cidades e as corporações dos diversos ofícios parassem de trabalhar. O Império assume o ritmo semanal e decreta o dia de descanso. Certamente esta legislação teve a influência da tradição cristã. Vale lembrar que em 313 o Imperador Constantino, através do Edito de Milão, deu liberdade religiosa aos cristãos.

O texto bíblico sobre o sábado, o Edito de Constantino e toda legislação trabalhista sobre o descanso tem por fundamento a compreensão antropológica. O ritmo entre trabalho e descanso é regra para conservar a vida. É um reconhecimento da dignidade humana, da liberdade e da igualdade. O descanso é uma regra contra a escravidão, a exploração, o acúmulo desenfreado de bens às custas do outro. O descanso semanal permite a convivência familiar, o encontro fraterno de amigos e as pessoas próximas. É tempo necessário para a celebração da fé em comunidade.

Fica a pergunta: Como vivo o domingo? Como a sociedade trata o domingo?

 

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo