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O Profeta e a profecia

 

Minha saudação a todos os irmãos e irmãs que acompanham a Voz da Diocese. A Liturgia da Palavra deste Domingo está centrada na dimensão profética da Palavra de Deus. A profecia não é apenas um assunto da Sagrada Escritura. Mais do que um assunto, é um eixo que perpassa toda a Bíblia, presente tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento.

Prezados irmãos e irmãs. O profeta é o homem que fala em nome de Deus e em nome do povo. Por isso, a palavra profética tem três características básicas: 1º) é uma palavra de denúncia, por isso, os profetas são a consciência crítica de Israel; 2º) a profecia é uma palavra que resgata o plano de Deus, por isso os profetas são “homens de Deus”, portadores de uma palavra de fé e de um anúncio; 3º) a profecia é uma palavra de defesa dos pobres, por isso os profetas defendem o direito e a justiça, sendo homens de resistência e de esperança. Os profetas bíblicos querem criar novas relações entre as pessoas; querem criar novas estruturas na sociedade para as pessoas viverem mais dignamente; e, enfim, querem criar pessoas novas, abrindo os olhos do povo à realidade que os cerca. É neste sentido que entendemos a Liturgia da Palavra deste Domingo.

A primeira leitura, da profecia de Ezequiel (Ez 2,2-5), descreve a vocação profética de Ezequiel: “Naqueles dias, depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé […]: Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim […]. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou te enviar” (Ez 2,2-4), pois “são um bando de rebeldes” (Ez 2,5). O profeta Ezequiel é enviado por Deus para denunciar pessoas e práticas injustas, sendo, assim, um sinal de que Deus não abandonou o seu povo.

Caríssimos. Lucas descreve que Jesus, depois do Batismo no Jordão e das tentações no deserto, havia retornado a Nazaré, “onde fora criado” (Lc 4,16). Na sinagoga, tomou o livro do profeta Isaías (61,1-2), fazendo desta profecia sua missão (Lc 4,21). O evangelista Lucas faz ver, desde o início, que Jesus tinha consciência de que o processo de instauração do Reino de Deus seria conflitivo: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24). E logo no início de seu ministério denunciou a falta de fé dos participantes da sinagoga de Nazaré (Lc 4,25-27). Por isso, “todos na sinagoga se enfureceram e, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade” (Lc 4,28-29a). Mateus informa que, “deixando Nazaré, Jesus foi morar em Cafarnaum” (Mt 4,12-13a).

Em seu ministério, Jesus “percorria todas as cidades e povoados ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 9,35). Por isso, Marcos descreve que Jesus “foi para Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanhavam” (Mc 6,1), prosseguindo com sua missão de “ensinar”. Jesus se apresenta corajoso, pois, embora expulso de lá, retorna novamente a Nazaré porque sente a necessidade de anunciar o projeto do Reino àquele povo.

Caros irmãos e irmãs. Diante dos efeitos de sua missão (Mt 11,4-5), muitas pessoas “se maravilhavam” (Mc 6,2). Admiravam-se de sua “sabedoria” e de seus “milagres”, pois o conheciam como “o filho do carpinteiro”, o “filho de Maria”, conheciam também “seus irmãos” e “suas irmãs” (Mc 6,3). Estes questionamentos levantam dúvidas em relação à sua origem, se era humana ou divina, pois conheciam seu “status familiar”. Por isso e ao mesmo tempo, eles também “se escandalizavam dele” (Mc 6,3) e, não aceitando o que ele propunha, diziam: “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres”? (Mt 13,54). Desta forma, entre eles Jesus “não pôde fazer milagre algum” (Mc 6,5). “E admirou-se da incredulidade deles” (Mc 6,6). Tais questionamentos eram levantados por não se abrirem ao mistério de sua pessoa, concentrando-se apenas em sua origem e dimensão humana, em sua família biológica. Assim, Nazaré e, mais amplamente, a Galileia apresentam-se como um lugar não acolhedor da Boa Nova do Reino, sendo até mesmo, denunciados por Jesus.

Todos nós, chamados pelo batismo a viver o seguimento a Jesus Cristo, da mesma forma somos convidados a anunciar sua Palavra, denunciando as injustiças presentes no mundo, de acordo com a própria missão de Jesus. Não tenhamos medo de viver de acordo com o Evangelho e ser no mundo, instrumento de Deus na construção de seu Reino.

Deus abençoe a todos e bom domingo!

 

Dom Adimir Antonio Mazali – Bispo Diocesano de Erexim