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Onde está o teu irmão?

A encíclica Fratelli Tutti, lançada pelo Papa Francisco em outubro de 2020, propõe uma reflexão na perspectiva da fraternidade e amizade social. A encíclica pretende provocar uma desacomodação das relações construídas sobre o individualismo, propondo a retomada da fraternidade, no reconhecimento do outro como um irmão de igual dignidade e diferente identidade.

O conceito Fratelli Tutti – Todos Irmãos – vem da tradição franciscana: era a expressão empregada por São Francisco de Assis. Na carta, o Papa se expressa em tom profético ao revelar sua inspiração no encontro entre São Francisco e o Sultão Malik-al-Kamil, no século XII, em pleno transcurso das cruzadas no Oriente Médio. A busca pelo diálogo com aquele que está distante, ou, até mesmo visto como potencial inimigo, se constitui como sinal de esperança e transformação da realidade. São Francisco não foi ao encontro do líder muçulmano para convertê-lo e, ao mesmo tempo, não perdeu sua própria identidade ao dialogar.

O Papa Francisco inicia o texto identificando as grandes questões existenciais humanas da atualidade, estabelecendo relações e limites entre o pessoal e o coletivo. No centro desse quadro, se encontra a grande ruptura atual: a ruptura entre o indivíduo e a comunidade. A Fratelli Tutti denuncia o surgimento de conflitos anacrônicos e o ressurgimento de nacionalismos fechados. Nessa linha, a encíclica discute, também, alguns efeitos da cultura globalizada que se espalha por diversos territórios, afirmando que essa cultura tem tornado os povos e os seres humanos, em si, vizinhos, mas não irmãos. Em um mundo de consumidores e espectadores, se dá o fenômeno da solidão na massificação e na dissolução de identidades.

Aponta, ainda, o problema do descarte mundial, que coloca alguns seres humanos como menos dignos até mesmo de continuarem vivos, e, assim, nascem novas pobrezas, uma vez que a pobreza sempre precisa ser medida na realidade concreta e atual. Persistem, também, injustiças alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um sistema econômico que explora e mata o ser humano, que trata, de forma desigual, homens e mulheres e, ainda, constrange muitas pessoas a situações análogas à escravidão.

Nesse contexto, emerge a tentação de viver uma “cultura de muros”, separando os outros, aqueles que não pertencem à nossa suposta aldeia, de nossa convivência, encarando-os como ameaças. Por isso, na encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco enfatiza o quanto somos fracos no acompanhar, no cuidar e no sustentar os mais frágeis e vulneráveis. Há muita dificuldade, em nosso atual contexto cultural e social, de identificar quem está caído. Ao nos concentrarmos exclusivamente em nossas necessidades, temos, na presença de quem está mal, um incômodo que nos leva a perder tempo. Isso revela uma sociedade enferma, erigida de costas para os mais frágeis.

A pergunta feita por Deus a Caim, quando esse havia assassinado seu irmão, Abel: “Onde está teu irmão?” é a questão através da qual a Sagrada Escritura questiona os determinismos e fatalismos que o ser humano usa para justificar o descaso e a apatia alheia.  Na reflexão proposta pela Fratelli Tutti, é não se sensibilizar com a dor do outro. Tal situação, diz o Papa, deveria provocar nossa indignação a ponto de sairmos de nossa suposta serenidade e alterar nossa relação com a vida. Afinal, nesse contexto, existem apenas dois tipos de pessoa: as que se importam e as que não se importam com a presença da dor humana. A encíclica ensina que o Reino de Deus que vem, acontece no encontro e, assim, expande o tempo para a eternidade.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria