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Origens da Celebração do Natal

Estamos celebrando o Tempo do Advento. Em nossas reflexões litúrgicas desejamos conhecer a origem da celebração do Natal. Nos séculos iniciais do cristianismo a Páscoa era a celebração litúrgica central, atuada em cada Domingo do Ano, como o Dia do Senhor. Já no século II inicia-se também a celebração anual da Páscoa, em data próxima da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, no início da era cristã, o Natal não era celebrado liturgicamente. Vejamos alguns aspectos históricos que conduziram sua celebração litúrgica.

Dificilmente alguém de nós se questiona sobre a data histórica do nascimento de Jesus Cristo, celebrada no dia 25 de dezembro. No entanto, não temos nenhum dado bíblico que nos indique data para a celebração do Natal do Senhor. Foram dois os fatos que, no século IV, influenciaram para que isso acontecesse: posição cristã ante a festa pagã em homenagem ao Nascimento do sol invencível (Natalis solis invicti) e a questão cristológica, ou seja, quem é Jesus Cristo?

Tudo indica que a origem histórica da celebração do Natal tem suas raízes numa festa pagã. Um cronógrafo do ano 354 notificou, num dos seus calendários, a celebração do Natal do sol invencível (Natalis solis invicti), no dia 25 de dezembro. Neste calendário civil ele acrescenta, na mesma data: nascimento de Cristo em Belém da Judéia (VIII Kal. Ianuarii natus Christus in Bethleem Iudeae). Por que a data 25 de dezembro? O culto ao deus Sol é muito comum entre os povos antigos. Roma não foge à regra e inclusive lhe dá importância oficial no Império, especialmente nos séc. III e IV, tentando ofuscar o cristianismo. O centro festivo desse culto pagão acontecia no solstício de inverno (dias mais curtos e noites mais longas), celebrado no dia 25 de dezembro. Nessa época era comemorada a vitória do deus Sol (luz) que anualmente vencia as trevas. Para os cristãos Jesus Cristo é a Luz que vence as trevas do pecado; o Menino cujo nascimento é celebrado é a luz que brilhou nas trevas (Is 9, 1), é o sol nascente que nos veio visitar (Lc 1, 78), é a Luz do mundo e quem o segue não anda nas trevas (Jo 8, 12). Portanto, temos um belo exemplo de inculturação do cristianismo em meio à cultura e religiosidade pagã. Concluem os estudiosos que já em 336 o Natal cristão era celebrado em Roma e depois em outras Igrejas.

Outro fator, que decididamente contribuiu para que acontecesse a celebração do Natal cristão, foi a chamada Questão cristológica do séc. IV, despertando atenção para a infância de Jesus. A Igreja reagiu diante de heresias que negavam a divindade da Pessoa de Jesus Cristo, com vários concílios (Nicéia, em 325; Constantinopla, em 381; Éfeso, em 431; Calcedônia, em 451), definindo o dogma cristológico: Jesus Cristo é homem-Deus, uma pessoa com duas naturezas, a divina e a humana. Diante da definição da fé  surge a conseqüente celebração da mesma.

Inicialmente, o Natal é considerado como celebração de aniversário do nascimento histórico de Jesus Cristo (S. Agostinho). São Leão Magno (+ 461) corrige esta teologia, afirmando que a celebração do Natal é mais que aniversário ou uma evocação histórica. Ele vê a presença do mistério celebrado, do hoje da encarnação (Sacramentum). O Natal é então considerado em união com o mistério pascal, como seu início.

Uma vez definida a celebração do Natal, não foi difícil para que surgisse o Ciclo natalino, com seu tempo de preparação (Advento) e sua continuação (Epifania e Batismo do Senhor).

Dom Aloísio A. Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul