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Os Refugos da Humanidade

Desde criança, sinto bater forte o coração quando ouço ou leio a frase do evangelho em que Jesus declara: “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude “ (Jo 10,10).  Sei o que significa ser pobre e não ter condições de alcançar muitos dos nossos “quereres”. Alguns nem sempre tão necessários, mas outros certamente facilitariam em muito a nossa vida. Por sorte, nunca conheci o que significa passar fome, não ter o que comer. Num mundo tão rico e pródigo, sempre considerei um escândalo a questão da fome.

Não é possível compreender a dicotomia existente  entre pobres e ricos. De um lado uns poucos com muito e do outro, muitos sem nada. Ainda nesta manhã vi um gesto generoso de uma jovem que comprava café e distribuía na calçada para os que estavam aí, nesse lugar, onde passa tanta gente, que não os percebe porque são invisíveis. São os “refugos” que ninguém quer ver, que não contam no cômputo daqueles para quem nada falta e dispõem de recursos para prover suas vidas, muitas vezes, com bem mais do que o necessário.

Em muitas ocasiões tenho refletido com meus alunos acerca deste “ser racional”, cantado em prosa  e verso, exaltado pela filosofia como o primeiro dentre os seres do universo. Grande a ponto de criar maravilhas, mas que, por vezes, é capaz das piores atrocidades. Bem recordou-nos Emmanuel Kant ao dizer o que o homem é animal racional. Eu saliento, é racional, mas por vezes é “animal”. O problema da fome desmoraliza nossa inteligência, é antievangelico, é desumano. Somente os que perderam a capacidade de sentir não o percebem, não se angustiam com ele e fazem de conta não existir. Neste exato momento eu me farto com o delicioso almoço servido com talheres e guardanapos muito bem postos à mesa e, no outro lado da rua, observo alguém que juntou do lixo algo para comer.

Como não me incomodar? Como comer em paz, sem pensar em que medida isso tem a ver comigo? Faz-me recordar a cena em que um jovem procura um rabino perguntando-lhe quando termina a noite e o dia começa? Após várias tentativas frustradas de resposta, o jovem desiste e implora que o líder espiritual responda à sua angústia: “mas então, mestre, quando a noite termina e o dia começa?” Ao que o iluminado homem responde: “quando fores capaz de reconhecer no rosto de cada pessoa um irmão, uma irmã será dia no teu coração.”

Temos andado por este mundo envoltos em trevas de egoísmo, tão preocupados com nossas próprias coisas, enquanto o mundo ao nosso redor suplica por uma nova humanidade, amadurecida no amor, evoluída não por causa de suas invenções ou inovações tecnológicas, mas pela capacidade de sentir com o próximo, sem virar o rosto. Obviamente todos sabemos, mas não custa recordar: aqueles que hoje são considerados refugos…são exatamente os que nos receberão nas moradas eternas.

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade