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Para onde vai a educação?

Embora todos os governos e governantes estejam acostumados a proferir discursos sobre a importância da educação, percebemos ser inversamente proporcional a seriedade com a qual a grande maioria dos gestores públicos a tratam. Não me refiro à legislação, pois essa temos em excesso. Os problemas da educação vão muito além das definições de carga horária e da já esgotada e cansativa cantilena da chamada educação em tempo integral.

Não é surpresa para ninguém que a educação em nosso país encontra-se há tempos em estado terminal. Tende a morrer e, com ela, estão fadados ao fracasso os projetos de futuro de uma sociedade que teria tudo para tornar-se referência em qualificação humana e profissional. Durante anos ficamos nos debatendo com questões pouco relevantes no âmbito prático. Estivemos e estamos nas mãos dos “especialistas” em educação, cuja preocupação maior não estava – e não creio que agora já esteja-  em permitir que os pobres tivessem acesso à educação e sim em confirmar que estavam certos em suas teorias muito bem fundamentadas pelos cursos realizados na Europa, na América do Norte, etc. Além disso, o Brasil sempre esteve mergulhado num cancro em que as políticas de governo se confundem com as políticas de Estado e, recaímos sempre no voluntarismo. Troca o governo, trocam as políticas educacionais, desconsiderando as construções pedagógicas e o efetivo processo de aprendizagem de cada estudante e os diferentes contextos.

Dispensamos muito tempo, energia e dinheiro discutindo as questões do chamado “Novo Ensino Médio”. As Instituições Educativas amargaram a angústia de se adaptar à Base Nacional Comum Curricular, foram repensados os quadros docentes – educadores foram dispensados, substituídos, passamos por crises e conflitos trabalhistas, a carga horária foi alterada, queimamos pestana para acomodar as orientações e não desaparecer do mapa educacional para vermos, em questão de poucos meses, novas orientações desconsiderando a luta empreendida por educadores e gestores.

Meu questionamento não se refere à validade do que se propõe agora, mas à forma como reiteradamente são tratados os educadores neste país. Por vezes tenho a impressão que os que “pensam” a educação estão de costas para a realidade. Como pensar educação integral num país onde a maioria dos jovens precisa trabalhar para não morrer de fome? Qual escola pública (e privada) comporta alunos em tempo integral? Que formação e acompanhamento dispõem os docentes para permanecerem com os estudantes 8 horas por dia, pois sabemos que há um esgotamento generalizado de quem trabalha na educação? Em quais escolas  há recursos humanos e tecnológicos para implantação de educação para o trabalho? Como ignorar a educação à distância, que tem seus limites, mas que facilitou a vida de tantos e o acesso aos saberes?

Enfim, penso que não haverá caminho enquanto o paradigma educacional estiver engessado da forma como está. Os governos deveriam preocupar-se em subsidiar as instituições que têm maior dificuldade em organizar-se e manter-se, ao invés de querer modular tudo como sempre fizeram. Isso seria mais justo, mais racional e mais eficaz. Menos normatizações e mais ação. Enquanto alguns “bruxos” da educação ficam criando poções mágicas, o tempo vai passando e vamos deixando para trás mais uma geração sem perspectivas de futuro e sem uma formação capaz de dar conta de uma realidade tão complexa e desafiadora. Quem sabe uma visitinha à escola do bairro onde moram ajudaria em uma autocrítica mais realista e mais comprometida com a educação.

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade – Secretário Executivo da CNBB Sul 3