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“Quero misericórdia…”

No centro da liturgia da Palavra do 10º Domingo do Tempo Comum (Oséias 6,3-6; Salmo 49/50, Romanos 4,18-25; Mateus 9,9-13) está a misericórdia. Jesus questionado porque chamou o cobrador de impostos Mateus, futuro evangelista, e depois vai fazer refeição na casa dele com outros cobradores de impostos e pecadores, responde desta forma: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.

Por que é preciso tratar com misericórdia todos seres humanos? Porque todos os humanos são mortais, sujeitos a doenças em qualquer etapa da vida, limitados no conhecimento, instáveis nas decisões morais e éticas. Ou, usando as palavras de Cristo, todos podem ficar “doentes” e todos são “pecadores”. Para Jesus só estão excluídos, os que se excluem porque se “consideram sãos e justos”. Por isso, todos devem ser tratados com misericórdia e todos devem exercer a misericórdia.

Misericórdia é uma palavra-chave, uma daquelas que introduzem no coração da Sagrada Escritura. O que a Escritura entende por misericórdia? Não existe uma definição objetiva e restrita, pois a misericórdia se manifesta mais nos fatos que nas definições. O Papa Francisco percebeu a importância do tema e convocou no dia 11 de abril de 2015 o “Jubileu Extraordinário da Misericórdia” para o período de 08 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016”. Ao término do Jubileu escreveu a Carta Apostólica “Misericórdia et Mísera” indicando que o caminho misericordioso não pode ter fim. Vale recordar alguns ensinamentos do Papa Francisco que nos permitem compreender mais e viver a misericórdia.

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o clímax em Jesus de Nazaré. (…) Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus”. (n.1).

“Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida, Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”. (n. 2)

É importante ressaltar a relação entre justiça e misericórdia. Aparentemente há um contraste entre elas, “mas são duas dimensões da mesma realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor” (n.20). A justiça na sociedade e na Bíblia é um conceito fundamental. Sem ela a vida comum se torna inviável. A Sagrada Escritura apresenta a Deus com justo e aquele que faz justiça. “A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar” (n.21).

A tradição da Igreja sempre valorizou as “obras de misericórdia corporal e espiritual”, pois elas tocam todas as dimensões da vida de uma pessoa. As obras corporais são: dar de comer, dar de beber, vestir os nus, acolher os peregrinos, assistir os doentes, visitar os presos, enterrar os mortos. As obras espirituais são: dar conselho, ensinar, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar, sofrer com paciência, rezar pelos vivos e falecidos.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo