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Rever nosso estilo de vida

Frequentemente, escutamos dizer que estamos vivendo uma crise de valores, que faltam referências e autoridades morais para orientar a sociedade do cansaço e a era do vazio. De fato, percebe-se uma inversão de valores, segundo a qual competir é mais importante do que cooperar, enganar o outro para tirar vantagem parece normal, e acreditar e frequentar a religião parecem ser opções de quem entregou sua liberdade para uma dimensão abstrata da fé.

Ocorre, contudo, que a opção por uma vida mais livre, sem limites e sem pressões está causando uma saturação da existência e a ansiedade toma conta de muitos corações. Oferecemos valores como o sucesso, a usurpação, a mentira e o lucro como balizas para pautar a existência. Contudo, o que mais cresce é o número de pessoas insatisfeitas, desorientadas e desconfiadas. E a ansiedade toma conta, perde-se o equilíbrio, bem como a sabedoria de contar os dias que passamos nesta Terra. Alguns se abrigam sob o guarda-chuva do pessimismo e da tristeza crônica, ou de uma euforia passageira.

É claro que cada um de nós sabe a beleza e o peso de viver nesse momento histórico. Cada um carrega seus sonhos e decepções, seus traumas e suas realizações. Mas onde estão os modelos e exemplos de pessoas que vivem os valores que sustentam uma vida mais equilibrada e sadia?

Em primeiro lugar, é preciso recordar que muitas civilizações, no passado, experimentaram tempos obscuros. Para superar esse tempo no qual parece que os malvados, debochados e aproveitadores estão vencendo, é preciso mais que inteligência; é necessário ser sábio, ser capaz de aceitar viver nesse nevoeiro sabendo que irá passar. Assim, a humanidade recuperará um ponto de vista superior, ao criticar essa inversão de valores.

Já avançamos, em alguns aspectos, nesse sentido. Procuramos denunciar e condenar a discriminação, a exclusão e o preconceito. Sabemos que toda pessoa tem uma dignidade singular que deve ser respeitada e acolhida. É verdade que ainda testemunhamos posturas contrárias a essas condutas, mas elas ainda são rejeitadas pela maioria.

Para recuperarmos valores e referenciais, cabe-nos ajudar, sobretudo, os educadores a promover valores justos, humanos e fraternos.  Somos chamados a crer na esperança de que dias melhores virão. Pode ser que a nossa geração seja incapaz de dar um passo e superar a violência, o medo e a injustiça. Mas essa tendência não é um determinismo que condena toda a humanidade a esse vale de lágrimas.

Na fé judaico-cristã, crer na promessa é viver o presente esperando um futuro que já se tem certeza que se cumprirá. Somos todos herdeiros de grandes valores como a humildade, a honestidade, o bom-senso, o equilíbrio, a sobriedade, etc. Desde a sabedoria de Salomão, passando pela compaixão de Jesus Cristo, até chegar à simplicidade de Francisco de Assis, aprendemos que outro modo de viver é possível.

As novas gerações nos interpelam criticando o estilo de vida que a maioria está vivendo. Elas reclamam mais empatia, respeito e comprometimento. Escutar esses apelos pode nos educar para rever a forma como estamos cultivando nossos valores. Eles não perderam sua validade, nós é que nos distraímos buscando felicidade efêmera e falsas seguranças. Ainda é tempo de cultivar os valores que não são do passado, mas do futuro.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria