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Saciar a fome é alimentar a esperança

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Na próxima quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas, iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma. É um tempo especial, no qual, com a nossa mente, o nosso coração e todas as nossas forças, empenhadas nas várias atividades do cotidiano da vida, esperamos também ser envolvidos com Jesus, na alegria da ressurreição.

A Quaresma deve ser um tempo especial na vida de fé do cristão. Ela deve ter reflexos sobre a nossa vida espiritual e em nossa comunhão com o Senhor, mas também deve nos levar a ter atitudes e gestos concretos de proximidade e caridade para com os irmãos. Em outras palavras, comunhão com Deus e amor pelo próximo, como manifestação concreta da nossa vida de fé.

No Brasil, a Igreja Católica Apostólica Romana, já de longa data, faz também o lançamento da Campanha da Fraternidade, na Quarta-feira de Cinzas. Essa Campanha, ao longo dos anos, tem abordado temas pertinentes à nossa realidade brasileira. Temas que tocam a vida milhões de pessoas, de irmãos e irmãs que partilham conosco o sentido de pertença a este país, mas vivem a realidade da exclusão social, não possuindo nem mesmo o essencial para saciar a fome e sobreviver. Para nos conscientizarmos, como cristãos e sociedade, sobre a gravidade desta realidade tão desumana, a Campanha da Fraternidade deste ano, traz o tema: “Fraternidade e fome”; e tem como lema: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

Não podemos esquecer que há uma relação muito estreita entre a missão específica da Igreja, recebida de Cristo, de anunciar a Boa Nova da Salvação a todos os povos, e a responsabilidade de colaborar com a sociedade. O compromisso com o bem comum faz parte da sua missão, ela não pode deixar de ser profética, pois seria omissa diante de Deus e estaria traindo a missão recebida do Senhor Jesus. O profeta, na Bíblia, é o homem de Deus, aquele que anuncia a paz e a esperança, e aponta o caminho a seguir. Mas também denuncia a falta de fidelidade do povo e as injustiças que ferem a dignidade de povo de Deus.

Conscientizar os fiéis para a responsabilidade de cada um com o Evangelho é fundamental para combatermos a cultura da indiferença, que se reflete na falta de amor ao próximo e na falta de espírito de comunidade. A perda do espírito comunitário leva ao isolamento e ao fechamento. Abandonamos as relações familiares e comunitárias, os princípios éticos e morais, que nos foram transmitidos pelos nossos pais. “O cristão que descuida dos seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna (GS 43).

Jesus, rosto da misericórdia do Pai, quer entrar no nosso coração e olhar as nossas intenções mais profundas, para nos ajudar a buscarmos a glória de Deus, com as nossas ações. Por isso, nos convida a praticarmos a justiça de Deus, através da esmola, da oração e do jejum. Que esses gestos expressem a glória de Deus, e não sirvam para manifestar a vangloria pessoal ou a oportunidade para humilhar o pobre e o necessitado. Faze a tua misericórdia no Senhor, unido a Ele, e o Pai que tudo vê, em segredo usará de misericórdia contigo.

Desejo a todos uma caminhada quaresmal marcada profundamente pelo amor-caridade, compaixão e proximidade com Deus e com o próximo. Que o Deus da vida, criador e redentor, nos dê sabedoria para assumirmos com responsabilidade social o cuidado da vida. Que a nossa fé no Senhor nos faça ver a realidade dos que passam fome, e nos leve a agir concretamente para ajudar os que clamam pela vida.

+ Dom José Gislon, OFMCap. – Bispo Diocesano de Caxias do Sul