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Semeadores do Reino

 

Estimados irmãos e irmas em Cristo Jesus! O ato de semear é sempre marcado pela esperança de uma farta colheita, não importa qual o método usado para lançar a semente na terra. E toda semente tem um ciclo para produzir seus frutos, durante o qual precisa ser cultivada pelo semeador e pela ação favorável da mãe natureza. Sem isso, por melhor que seja a semente, ela corre o risco de não produzir os frutos esperados.

Na seara do Senhor, todos os batizados deveriam ser semeadores do Reino, independente do estado de vida que abraçaram, pelos ministérios ordenados ou como consagrados. Mas também como leigos e leigas, tendo presente que todos os batizados têm o sacerdócio comum dos fiéis, pela graça do batismo. Todos nós podemos semear a semente da Palavra de Deus, a semente do bem, da esperança, da caridade, da solidariedade, independente do lugar em que habitamos ou da classe social a que pertencemos, na fé, somos todos povo de Deus a caminho da casa do Pai.

Às vezes, podemos cair na tentação de querer lançar sementes do bem para o ar e querer que logo elas deem frutos, sem ter a paciência, a sabedoria e a humildade do semeador, que lança a semente na terra e espera que ela faça a sua parte. Quando estivermos convictos de que as sementes do bem, para produzirem frutos, precisam ser lançadas não ao vento, mas no coração das pessoas, mesmo diante de realidades socialmente e humanamente fragilizadas, então poderemos alimentar no coração a esperança do semeador, de que a colheita será abundante.

O semeador do bem sabe ser solidário e pratica a caridade na gratuidade, em virtude da sua fé, da sua consciência de que o necessitado é seu irmão e sua irmã, aos olhos de Deus. Através da solidariedade e da caridade, podemos olhar o próximo com os olhos de Deus, isto é, não como mais um ser humano, com seus direitos e deveres, vivendo numa sociedade marcada pela indiferença e pelo mercado de consumo, mas alguém que é uma “viva imagem de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e colocada sob a ação do Espírito Santo”.

No tempo da Quaresma, ouvimos constantemente falar de conversão. Mas a conversão espiritual do cristão deve ter como meta uma mais intensa comunhão com os irmãos e com o Senhor Jesus. Sem isso, nossa conversão torna-se sem rumo, corremos o risco de vagar pelo deserto e não encontrarmos aquilo que deveríamos encontrar, a fonte do amor, onde jorra a água viva, que nasce da misericórdia do Pai e reaviva a nossa esperança, sacia a nossa sede de justiça e nos aponta o caminho do Reino de Deus.

São Tomás de Aquino, em uma de suas obras, nos recorda que a nossa pobreza e a nossa miséria, objetos da misericórdia de Deus, não consistem somente na pobreza e miséria físicas. A nossa verdadeira pobreza consiste no nosso afastamento de Deus, provocado pelo pecado. Deus quer nos doar, desde a eternidade, a sua aproximação e a sua comunhão; ele quer que nós estejamos próximos dele. Deus, pai misericordioso, quer estar próximo de seus filhos e filhas, curar suas misérias, que ferem o corpo e a alma, para que a vida floresça com toda a sua dignidade.

 

Dom José Gislon, OFMCap.  – Bispo Diocesano de Caxias do Sul