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Somos Todos Estrangeiros

A vida é um sopro e tudo passa muito rapidamente. Na história do universo, a existência do homem não vai além de um átimo e, em relação à história pessoal, corremos o risco de frustrar-nos ao descobrirmos que somos menores do que imaginamos.  Não há vida que possa considerar-se melhor ou mais importante do que a outra. Cabe o reconhecimento de igual valor a todos os seres vivos. E nós que partilhamos da espécie humana sabemos que estamos a caminho, por não sermos daqui, ao mesmo tempo em que reconhecemos a imensa necessidade que temos uns dos outros para garantir nossa sobrevivência na Terra.

Há 72 anos a humanidade via nascer com esperança a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brilhava um novo raio de luz em meio às trevas de um planeta recém saído de duas guerras, que haviam debilitado não apenas econômica, mas moralmente as comunidades e as culturas. Os países que assinaram a Declaração comprometiam-se em envidar esforços para garantir que cada pessoa pudesse ser tratada com dignidade e respeito.

Muito foi realizado no sentido de promover a vida, a solidariedade, a liberdade e a esperança pelos quatro cantos do planeta. Juntamente com a Declaração Universal levantaram-se os movimentos defensores dos trabalhadores, das mulheres, das crianças, dos povos indígenas, dos idosos, dos refugiados e de muitos outros que estavam à margem da vida.

Hoje celebramos o dia Internacional dos Direitos Humanos. E é importante celebrar, pois não foram poucas as conquistas alcançadas. Nestes decênios foi necessário muito diálogo e muita abertura para que mais gente compreendesse o valor inalienável da vida e o que ela tem de mais preciso: a liberdade.  Embora ainda existam aqueles que olhem para o planeta pensando-se melhores e com mais direitos, a humanidade evoluiu. Impressionado ao ler um livro com o título: “como ser um conservador” deparei-me com  a tese de que não somos donos de nada, somos apenas os responsáveis pelo que herdamos e temos a tarefa de garantir que os que virão depois de nós tenham algo a herdar, aproveitar e valorizar para transmiti-lo às gerações que os sucederão.

Nada do que possuímos é verdadeiramente nosso. Chegamos sem nada ao mundo e partiremos de mãos vazias. De mãos vazias? Nem tanto. Partiremos com os resultados de nosso empenho em ajudar este mundo a ser menos egoísta-  a começar por nós- e mais aberto ao outro, ao diferente, ao que nada tem, ao que é desprezado e rechaçado, àquele a quem é negado o direito universal de viver com dignidade.

Este texto é curto, mas almeja a profundidade do oceano ao recordar que, neste exato momento, ainda há muito a ser feito em prol das inúmeras crianças que neste imenso Brasil passaram um ano sem aula, não porque os professores tenham preguiça, mas porque temos um sistema educacional frágil e não temos políticas que atendam às camadas mais pobres. Há ainda muito a ser feito para garantir a dignidade dos idosos que depois de uma vida inteira de trabalho são submetidos aos mais imorais procedimentos estatais, que os humilham para ofertar-lhes um salário irrisório em relação ao que contribuíram durante décadas de trabalho.

No dia de hoje temos muito a celebrar, mas temos tanto a refletir, a olhar, a discernir sobre como podemos nos empenhar, erguer nossa voz e colocarmo-nos ao lado dos que mais sofrem, quase sem ninguém por eles. Ser cristão penso que consiste nisso: em sabermo-nos estrangeiros, passageiros e co-responsáveis para que a vida neste nosso tempo seja mais vibrante, com tons mais coloridos e acordes com sonoridade de paz e amor ao próximo. VIVA A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS! VIVA O HUMANO DIREITO DE ESTAR NESTE MUNDO COM DIGNIDADE E LIBERDADE!

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade