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Uma gruta, faixas e a manjedoura

Desde o século II a tradição costuma representar o nascimento de Cristo numa gruta. A sua vida terrena é fechada no mistério de duas grutas, a do presépio e a do sepulcro. Primeiro, envolto em faixas de recém-nascido, depois, numa mortalha; primeiro, colocado no lenho do berço, depois, no lenho da cruz. E Maria estava lá: impressiona ver essa jovem mãe enfaixar seu filho e colocá-lo repousar numa manjedoura. Impacta saber que ele é retirado do lenho da cruz e depositado nos braços da mãe senhora das dores, como vemos na escultura marmórea da Pietá de Michelangelo Buonarroti.

Nos ícones orientais, quando se pinta a cena do nascimento de Jesus, a gruta é feita num fundo bem escuro, num azul quase preto. Essa cor representa o Hades, a morada dos mortos, e indica que o recém-nascido está agora sujeito à morte. Na representação do ícone da Páscoa, essa cor escura tinge os infernos, ao qual Jesus desce, e cujas portas esmaga, para nos salvar. É o que rezamos no creio: desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia.

A condição mortal é indicada também pelas faixas de linho que envolvem o Menino, e remetem às faixas que o envolverão em sua Paixão. Maria o “enfaixou”: Deus quis necessitar dos cuidados humanos. Deus confiou-se nas suas mãos, frágil e indefeso, envolto de ternura. Era costume no tempo de Jesus lavar o recém-nascido, limpá-lo com sal e envolvê-lo em faixas de linho. Igualmente na morte, o corpo da pessoa era muito cuidado: após ser bem lavado e ungido com perfumes como mirra e aloés, o cadáver era envolto em faixas para ser depositado no sepulcro.

Os panos serão, para os pastores, sinal de reconhecimento do menino, e para as mulheres, Pedro e João, serão sinal tangível da Ressurreição ante o sepulcro vazio (Lc 2, 13; Jo 20, 1ss). Os panos do menino são as roupas mortuárias que, depois, aparecerão espalhadas pelo sepulcro, quando ressuscitou.

E Maria colocou o menino numa manjedoura. “Colocou-o” é uma expressão que tanto pode ser usada para deitar: colocar o bebê no berço, quanto para a refeição: colocar o alimento na mesa.  Nesse caso, Jesus é deitado para dormir no lugar onde se come, numa manjedoura. Faz-se uma alusão à Eucaristia: o pão dos anjos, o alimento descido do céu, que dá a vida, é colocado no lugar onde comem os animais. Deus se doa como vida e alimento ao humano pecador. Deus, que é amor e acolhida, está necessitado de amor e de acolhida. Mas não encontra lugar entre nós senão num lugar dos animais, e na manjedoura.

Destaca-se ainda que a manjedoura aqui retratada lembra, às vezes, um altar, profetizando o sacrifício oferecido por Cristo uma vez por todas no altar da cruz. Sua matéria-prima, a madeira, evoca justamente a cruz, árvore da vida, e a árvore do paraíso, junto da qual os primeiros pais pecaram. A manjedoura tem a forma de um sepulcro, numa alusão ao momento em que Ele será deposto da cruz, envolto em uma mortalha e colocado num sepulcro cavado na rocha (cf. Lc 2,7; 23,53).

Perceber os sinais simples da gruta, das faixas e do coxo de animais como lugares onde Deus se manifesta é ter sabedoria para perceber que o Natal ilumina as trevas do cotidiano. Não pode haver tristeza quando nasce a vida!

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria e Presidente do Regional Sul 3