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Uma Nova Humanidade

Como diria Frankl não importa o que acontece do lado de fora, as pessoas reagem baseadas naquilo que carregam por dentro. Esta crise que agora vivenciamos traz à tona o que há de mais íntimo a cada pessoa que, no turbilhão do mundo moderno, passa despercebido.

Não pretendo dar aqui uma de maniqueísta distribuindo as pessoas entre as prateleiras do bem e do mal. Todos nós somos um pouco egoístas como provavelmente em cada um haverá espasmos de generosidade e delicadeza. Com as ruas esvaziadas, entre memes e paródias, o homem volta-se para dentro de suas casas e aí revela-se a si, à sua família, aos vizinhos, aos outros.

Tivemos vários exemplos dignos de aplauso nos últimos dias. Falo da sensibilidade de boa parte da sociedade em relação aos profissionais da saúde, aos idosos, às milhares de mortes em outros países e às perdas de pessoas em nossa própria pátria, nesta ingrata e desigual luta contra o coronavírus.

Mas espere, a pauta não está completa. Ainda que em notas diminutas, temos também as investidas dos egoístas que escandalosamente, sem o mínimo pudor, expõem o que há de pior em nossa pobre humanidade. Refiro-me aos egoístas que esvaziaram os supermercados e as farmácias comprando o que não precisavam e tornando a vida dos mais pobres ainda mais penosa por rezarem a cartilha do mercado compactuando com ela, tornando escassos os produtos e, por isso, mais caros. Refiro-me também às pessoas que, sem a mínima consciência, continuaram frequentando bares, clubes, praças da cidade, dando o famoso “jeitinho brasileiro”, achando-se acima do bem e do mal. Nossa lista iria longe se fôssemos elencar as práticas deploráveis que tornam o animal racional mais animal do que racional.

Não é preciso ser cristão, nem religioso para dar-se conta de que algo vai mal nesta nossa velha humanidade. O egoísmo se naturalizou e cada um pensa apenas no seu umbigo. Neste momento, vêm-me à mente no mínimo uma dúzia de filósofos que indicariam a máxima kantiana de fazer aos outros aquilo que desejaríamos para nós, aliás, se não me engano, um certo galileu falou algo parecido quando expressou a necessidade de amar o próximo como a si mesmo.

Senti-me impulsionado a escrever este pequeno texto para chamar atenção a dois aspectos fundamentais: pior do que morrer contaminado com esse vírus que nos rodeia é impregnar-se da miserável onda egoísta entranhada nesta civilização. E em segundo lugar, escrevi-o na esperança de que nós, ou ao menos alguns dos que vierem a ler este texto (incluo a mim mesmo), ao menos uma vez na vida sejamos capazes de colocar os outros em primeiro lugar, ficando em casa, evitando agredir os outros nas redes sociais, desarmando-nos um pouco para que possamos, ainda que por breves instantes, respirar ares de esperança não só do fim do vírus que aí está, mas de uma nova humanidade, que pela primeira vez de forma plena temos a oportunidade de forjar.

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade