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Entrevista Especial: Juliana de Azevedo partilha sobre a Missão em Moçambique

Há pouco mais de dois meses, na noite de 10 de agosto, a jovem Juliana Assis de Azevedo embarcava para Moçambique enviada por amigos e familiares no aeroporto de Porto Alegre. Entre as despedidas, o desejo comum de “boa missão”, já que Juliana partia para integrar, por dois anos, a equipe missionária do Regional Sul 3 em Moma, na Arquidiocese de Nampula.

Passados estes 70 dias e motivada pelo Mês Missionário que vivemos em outubro, Juliana partilha na entrevista a seguir suas impressões e seus sentimentos sobre o país que agora a acolhe e sobre a experiência da missão ad gentes em Moçambique. Em 28 anos de história do Projeto Igrejas Solidárias entre o Regional Sul 3 e a Arquidiocese de Nampula, a jovem de Gravataí é a 65ª missionária enviada pela Igreja do Rio Grande do Sul a Moçambique.

Quem é a Juliana Assis de Azevedo?

Sou natural de Gravataí, filha da Paróquia Nossa Senhora dos Anjos, discípula missionária, membro da comunidade Católica Nos Passos do Mestre, leiga, residente em Porto Alegre, servidora pública, assistente social. Sou uma pessoa muito grata pela vida que é dom de Deus e um pouco inquieta com situações sociais que limitam a dignidade da pessoa humana. No momento, alguém que caminha em terras estrangeiras e faz uma nova experiência de Deus.

O que te levou até a Missão em Moçambique e qual foi o caminho de preparação para chegar na missão?

O meu coração estava inquieto e ansiava por algo novo, uma experiência nova com Deus. Durante a pandemia do coronavirus, tempo de muita dificuldade para as pessoas mais vulneráveis, esse desejo ganhou força no meu coração. Me coloquei à rezar e perguntar o que Jesus queria de mim. Minha primeira atitude foi conversar com minha formadora pessoal, após conversei com missionários que eu já conhecia  para ter contato com experiências missionárias e seus testemunhos. Assim, fui apresentada à Victoria, coordenadora do COMiRE RS e conheci o projeto Igreja Solidárias do Regional Sul 3 da CNBB. A partir disso, iniciei um processo de discernimento, aos poucos a providência de Deus foi se manifestando e as portas foram se abrindo para que eu pudesse “deixar” aquilo que era necessário para viver a missao.

Dois meses que estás na missão! É já ou apenas? Quero dizer, neste período, o tempo correu como corre em nossas vidas aqui no Brasil?

Pergunta difícil. Posso dizer que são as duas coisas. Parece que faz muito mais do que dois meses que me despedi da família e amigos no Brasil. Mas ao mesmo tempo, dois meses é tão pouco para o tanto de novidades, aprendizados e descobertas que a missão já me proporcionou. Com certeza a missão corre num tempo diferente, as vezes esqueço que dia é.

Algo já mudou na Ju que saiu do Brasil naquele 10 de agosto?

Com certeza, muita coisa mudou! Deus tem feito muito em mim. Me sinto a argila nas mãos do oleiro do trecho bíblico de Jeremias. Uma argila que é moldada pelo próprio Deus para transformar-se num vaso novo, de acordo com a vontade Dele. Para mim a primeira grande novidade foi enxergar a força da fé do povo Macua. A fé desta porção do povo de Deus tem transformado meu modo de pensar e lidar com minhas preocupações, lamentações e/ou queixas. O significado da vida tem ganhado para mim um novo sabor.

Na missão não há rotina, certo? Como são seus dias por aí?

A missão não se apresenta com uma lista de coisas a serem feitas. Todo dia é um novo dia, diferente daquele que passou. Me divido entre as atividades pastorais e as atividades dos projetos sociais, as quais estão inseridas no contexto da vida das pessoas daqui, na vida do povo. Nesses primeiros dias de missão, me debrucei em observar a equipa missionária, as pessoas da vila, e ajudar em tudo que me cabia ou me era possível, como receber uma visita e escutar as pessoas, participar das celebrações, brincar com as crianças, visitar um doente, visitar o lar Vocacional, conversar com os jovens etc… a missão é o que Deus nos pede a cada dia.

E Moçambique, que tal? Quais são suas impressões do país?

Moçambique me pareceu país de muito potencial em diferentes áreas, especialmente pela sua cultura muito rica e diversa. O povo é muito acolhedor, trabalhador e de uma fé profunda. Fiquei encantada com as danças, ritmos, cantos, modo de celebrar. Mas também percebo que é uma nação que possui dificuldades e necessidades sociais e econômicas. A vida das pessoas é muito dura e carece de acesso à educação, à saúde, ao trabalho e à plena cidadania de modo geral.

Pra você, qual o seu papel como missionária neste contexto?

Para mim o papel do missionário em todo e qualquer contexto é ser uma presença de esperança e testemunhar Jesus. Por mais desafiador que seja o contexto social de Moçambique, tenho clareza que não estamos aqui com o objetivo de transformar uma realidade do tempo presente, mas ser sinal, profecia, sementes… Nem sempre é fácil,  mas coloco meus dons à disposição de Deus para que o seu Espírito conduza pequenas mudanças em cada situação que o cotidiano da missão apresenta. Parece pouco, mas é muito!

Quais são as surpresas deste tempo na missão?

Deus nos surpreende o tempo todo! Desde a chegada aqui, muitas coisas surpreenderam, como as estradas difíceis, as casas de banho no interior, dormir em camas de cordas e mosquiteiro (pois a guria da cidade não tinha feito experiência semelhante)… Ao mesmo tempo, surpreendeu a alegria em cada nova chegada a uma comunidade e a recepção festiva das pessoas, os sorrisos das crianças e seus olhares curiosos, as celebrações vibrantes com seus cantos e danças…

A Campanha Missionária deste ano lembra que A Vida é missão. É mesmo?

Eu penso que sim, a vida é missão. Não vestimos um uniforme ou crachá em certo tempo para depois tirá-lo e deixar de ser missionário. A missão não acontece no fazer, mas no ser. Em todo o tempo o Senhor nos convida a testemunha-lo. Assim, somos discípulos missionários em tempo integral da nossa vida: na família, no trabalho, nos estudos, com os amigos, nos relacionamentos, enfim em todas as dimensões da vida. Por esse motivo é muito oportuna a campanha missionária que nos convida a refletir sobre a missionariedade da nossa vida. Que o Espírito Santo nos ajude a viver com alegria esse chamado: a vida é missão, a nossa vida inteira anuncia Jesus.

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