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Políticos ou Estadistas?

O povo brasileiro deverá escolher nos próximos dias seus dirigentes políticos. Nesse processo, os partidos políticos têm uma missão característica: eles são chamados a interpretar as aspirações da sociedade civil orientando-as para o bem comum, oferecendo a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar da formulação de opções políticas.

Os candidatos eleitos pelo povo têm a tarefa de, em nome do Estado, administrar os bens do povo, tendo em vista o bem comum.

Tenha-se presente que o Brasil é a sétima economia mundial. No entanto, encontra-se entre os dez países do mundo com a pior distribuição da renda.

Constata-se que o país está socialmente regredindo a mais pobreza e mais desigualdade social. Está crescendo o mapa da fome. O desemprego e o subemprego alcançam cifras altíssimas. O nível de qualidade do processo educacional básico e fundamental é vergonhoso. As instâncias que têm a tarefa de cuidar da saúde da população não possuem recursos financeiros suficientes.

A transferência de renda do Estado para setores privilegiados da sociedade, através de renúncias, isenções e perdão de dívidas é algo que agride a dignidade dos mais pobres da sociedade. O povo está passando fome! O povo vai mal! Já o mercado financeiro oferece sinais fortes de que está muito bem!

Nas condições atuais da sociedade brasileira com tantas desigualdades e pessoas desalentadas e desesperançadas, o princípio do bem comum torna-se um apelo à solidariedade e uma opção evangélica pelos mais pobres. “Basta observar a realidade para compreender que esta opção é uma exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum” (Papa Francisco).

Causa preocupação o acirramento de posições políticas, certo clima de intolerância e de ódio presente em algumas expressões político-partidárias. Tal clima gera reações que poderiam ser consideradas fascistas, fundamentalistas, e/ou reacionárias.

O debate político é salutar. Partidos políticos com projetos de governo claros e objetivos são uma necessidade no jogo democrático. A campanha eleitoral precisa de um tempo hábil durante o qual partidos e candidatos possam apresentar suas propostas. No entanto, não é isso que se assiste. Não se pode cair numa marginalização ou descredito da atividade política.

Não se pode esquecer que a atividade política é, antes de tudo, um serviço; não é serva de ambições individuais, de bancadas, de prepotência de facções e de centros de interesses mesquinhos.

O Brasil necessita de crescimento industrial, tecnológico, autossustentado e sustentável, ao lado de políticas que enfrentem o drama da miséria e da pobreza e visem a equidade e a inclusão, porque não é verdadeiro desenvolvimento aquele que abandona os mais frágeis e pobres.

O Brasil necessita de estadistas! Ou seja, de pessoas versadas nos princípios ou na arte de governar; ativamente envolvidas em conduzir os negócios de um governo e em moldar a sua política; ou ainda pessoas que exercem a liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias (cf. Houaiss); pessoas que falam com concisão, precisão e sem ambiguidades, em linguagem franca, compreensível por todos.

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente do Regional Sul 3 da CNBB.