7 DE SETEMBRO › 05/09/2019

25° Grito dos Excluídos ocorrerá neste sábado (7) na Vila Santo Operário em Canoas

A 25ª Edição do Grito dos Excluídos é uma manifestação popular que denuncia a exclusão social em meio às celebrações da independência do Brasil no dia 7 de setembro. Realizada em todo o país, tem como tema “Vida em Primeiro Lugar” e lema “Este sistema não vale: lutamos por justiça, direitos e liberdade”.

Na região metropolitana de Porto Alegre, a mobilização ocorre neste sábado, na Vila Santo Operário, bairro Mathias Velho, em Canoas. A atividade terá início à 14h00, na Rua Negrinho Santo número 2070, bairro Harmonia, Canoas e vai percorrer pontos históricos da comunidade que, há 40 anos, foi palco da maior ocupação urbana do Rio Grande do Sul. Os trechos percorridos vão contar a história da ocupação e vão lançar diversos gritos com manifestação dos indígenas, quilombolas, agricultores de assentamentos da região, trabalhadores de várias categorias profissionais, sindicatos, centrais sindicais, LGBT, mulheres, juventude, igrejas, entre outros.
A comissão organizadora alerta que em caso de chuva a atividade ocorrerá no Centro das Comunidades, na Rua José Veríssimo, 961, também no bairro Harmonia.

Na coletiva de imprensa, realizada na segunda feira (2), Alcindo Pereira, integrante da comissão coordenadora do Grito e da comissão dos 40 anos da Vila Santo Operário disse que a ocupação iniciou no Natal de 1979. “A ocupação foi realizada por pessoas em busca de uma alternativa de vida. Foi um processo de muita organização comunitária e que gerou muitos frutos e muitas lideranças. Temos muito orgulho desta história”.

Egidio Fiorotti, um dos coordenadores do evento, acrescentou que, em 1979, a ocupação da Santo Operário, em Canoas, e da fazenda Macali, em Pontão, foram um grito de centenas de pessoas por terra para viver, plantar.

Na coletiva de imprensa, Greice Machado, do Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), lembrou que uma em cada quatro pessoas desempregadas procura emprego há, pelo menos, dois anos. “Os números do IBGE mostram que a taxa de desemprego atualmente é de 11,8 %. São 12,6 milhões de desempregados”. Apesar disso, ressalta “nós não lutamos só por empregos, mas por educação, moradia e todos os direitos enquanto cidadão”. Greice lembrou que para procurar emprego hoje, um trabalhador precisa de 300 reais por mês. “Temos milhões de pessoas hoje no país vivendo com um sentimento de impotência, de baixa estima, a um passo da depressão”, disse a jovem desempregada. Levantando a carteira de trabalho lançou um dos principais gritos dos trabalhadores brasileiros: “Esse documento assinado é o símbolo maior de dignidade dos trabalhadores”.
Representando a Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS), Ademir Wiederkehr, secretário de comunicação da entidade, lembrou que há três anos um golpe tirou do governo Dilma Rousseff, presidenta legitimamente eleita e que, de lá para cá ocorreram uma série de graves ataques aos direitos dos trabalhadores. “Que esse grito que vamos dar no dia 7 ecoe por todo o país e acorde aqueles que ainda não acordaram. Estamos vendo a precarização do trabalho depois da reforma trabalhista do golpista Temer, essa reforma está trazendo efeitos perversos, reduzindo direitos, reduzindo salários. É o grande grito que os trabalhadores querem dar por mais empregos. Também é o grito pela educação pública, contra os cortes, por saúde, contra o desmonte, em defesa do SUS, contra a reforma da Previdência e em defesa da aposentadoria. Além do aumento do desemprego, estamos vendo o crescimento da informalidade, da precarização e do trabalho sem direitos após a Reforma Trabalhista. As elites brasileiras querem que voltemos ao tempo da escravidão”, afirmou lembrando ainda que este ano também devemos acrescentar os gritos pela democracia e pela soberania.
Nana Sanches, da ocupação Mulheres Mirabal, trouxe o enfoque dos retrocessos sobre a vida das mulheres. “Hoje, a ministra Damares não só nega que existe violência no país, como contingencia verba para casa de acolhimento e abrigamento das mulheres. A gente está sentindo isso ao analisar os dados que, surpreendentemente, saem pelo próprio ministério sobre o aumento do feminicídio e da violência doméstica no país”, destaca. Nana ressaltou a importância de estarmos junto às bases, organizando as pessoas, nas comunidades e afirmou: “Não podemos ter medo da brigada, ter medo da polícia. Temos que ter medo da fome, da miséria que está voltando para o nosso povo. Acho importante a gente reverter esse discurso de derrota. A gente precisa agora uma palavra de coragem, relembrar os nossos heróis e heroínas que morreram na ditadura, pela mão do Estado que está aí, de novo, matando as pessoas”, denuncia Nana. “No dia 25 de novembro, vão fazer três anos que estamos fazendo esse trabalho na ocupação Mirabal, desde que Sartori desmontou a estrutura de políticas públicas para mulheres. Tem muita luta acontecendo no Brasil e precisamos reverter o discurso de medo e de derrotas que só nos paralisa”, concluiu.
Outro tema abordado na tarde desta segunda foram os projetos de megamineração que pretendem se instalar no RS e que, se instalados, afetarão inúmeras comunidades indígenas, quilombolas, assentamentos e agricultores familiares. Michele Ramos, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), disse que o Grito será uma oportunidade de alertar sobre os mais de 22 mil requerimentos de áreas do Estado, os 166 projetos que já estão em fase de autorizações de pesquisa e concessões. Citou os projetos que já estão em fase de licenciamento ambiental – São José no Norte, (mineração de titânio); Lavras do Sul (mineração de fosfato), Caçapava do Sul (mineração de Chumbo) – e lembrou que aqui, bem pertinho, a 15 km de Porto Alegre, está um deles: o projeto da Mina Guaíba, da Copelmi. “Estamos mostrando para a população o risco de se assumir um projeto desses de mineração. Assumir um projeto de mineração de carvão a céu aberto ao lado de Porto Alegre, por exemplo, é colocar em cheque a qualidade de vida e o abastecimento público de água. Temos tentado construir esse debate, já que para se chegar no carvão, a mineradora vai ter que desviar os lençóis da água”, aponta Michele.
A principal inquietação dos povos tradicionais foi manifestada por Davison Soares, morador do Quilombo dos Alpes e integrante da Federação Quilombola do Rio Grande do Sul: à titularização de terras. “Esta é uma realidade que está cada vez mais difícil”. Segundo ele, o governo está fazendo um desserviço ao dizer que, se depender dele, as comunidades quilombolas e indígenas não terão mais nenhum palmo de terra. “Isso causa uma indignação na gente, porque temos uma cultura naquele espaço, naquele território, temos raiz naquele local. Muitas comunidades quilombolas preservam a natureza do local, sobrevivem dela, temos agricultores, por isso a gente se soma ao grito”.
Goddman Andrade Santos, professor e advogado do coletivo ANGLICANXS+, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil agradeceu o espaço para falar e disse que, em seus 32 anos de vida nunca tinha sido agredido até este ano. “O que a gente está sofrendo é a legitimação do discurso do ódio, estimulando amplamente no país”. Lembrou da violência e discriminação homofóbica. “A gente se soma ao Grito dos Excluídos, somos uma população que é historicamente excluída da sociedade, avançamos muito e também retrocedemos em algumas coisas nos últimos meses.”, conclui Goddman.
Dom Humberto Maiztegui, bispo da Igreja Anglicana, falando em nome do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC, disse que devemos ficar alertas e vigilantes para o papel das religiões que deve ser em favor da vida. “As religiões não devem fortalecer o machismo, o ódio, a homofobia, o racismo ou a perseguição a outras crenças e expressões religiosas. Se fizerem isto, não estão cumprindo o seu papel”. Além disto, falou sobre a importância de todas as tradições e expressões de fé e religiosidade – cuja diversidade é uma das grandes riquezas do Brasil. “Devemos respeitar todas as tradições, especialmente as dos povos originários, massacradas durante muito tempo, ainda nos dias atuais”, concluiu.
Roseli pereira Dias
Assessora da Cáritas Brasileira – Regional do Rio Grande do Sul
Da coordenação do Grito na RMPA