A Transfiguração: luz no caminho da Quaresma
No coração do caminho quaresmal, a Igreja nos conduz ao alto do monte com Jesus. O Evangelho da Transfiguração não é um desvio da Quaresma, mas uma luz colocada no meio da travessia. Antes de descer para Jerusalém, antes da cruz, Jesus sobe ao monte com alguns discípulos e lhes permite ver, por um instante, aquilo que normalmente permanece escondido: a glória que habita sua humanidade e que será plenamente revelada na Páscoa.
A cena é profundamente pedagógica. Jesus não se transfigura para fugir da cruz, mas para preparar os discípulos para atravessá-la. A Quaresma é exatamente isso: um tempo em que Deus nos concede clarões de luz para que não percamos o sentido do caminho quando a noite se torna mais escura.
Escutar Jesus de verdade
No monte, o rosto de Jesus resplandece, suas vestes tornam-se luminosas, e aparecem Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas. Tudo converge para Ele. A Transfiguração revela que Jesus é o cumprimento da história da salvação e que sua entrega não será fracasso, mas fidelidade amorosa ao Pai.
Pedro, impressionado, deseja permanecer ali: “Senhor, é bom estarmos aqui”. É uma reação compreensível. Todos nós gostaríamos de ficar nos momentos de consolação, nas experiências luminosas da fé, longe das dificuldades e das cruzes. Mas a fé cristã não é permanência no monte; é descer com Jesus para a realidade, assumindo a vida concreta com coragem e esperança, levando no coração a luz que vimos.
A nuvem luminosa envolve os discípulos e a voz do Pai se faz ouvir: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” Eis o centro da Transfiguração e também da Quaresma: escutar Jesus. Não apenas admirá-lo, não apenas falar dele, mas escutá-lo de verdade — sobretudo quando Ele fala de cruz, de serviço, de entrega e de amor até o fim.
Nossas dores não têm a última palavra
A Quaresma é esse tempo privilegiado de escuta. Em meio a tantas vozes que nos confundem, somos convidados a silenciar para ouvir o Filho amado. A oração nos ajuda a subir ao monte; o jejum purifica nosso olhar; a caridade nos ensina a descer ao encontro dos irmãos. Tudo converge para uma escuta mais profunda do Evangelho.
A Transfiguração também nos recorda que a glória de Deus não elimina a fragilidade humana, mas a atravessa. Jesus não deixa de ser humano ao se transfigurar; ao contrário, revela o destino último da humanidade: ser transformada pela comunhão com Deus. Isso nos consola e nos fortalece: nossas lutas, nossas dores e nossas cruzes não têm a última palavra.
Quando os discípulos descem do monte, Jesus lhes pede silêncio. Ainda não era hora de anunciar plenamente o que tinham visto. Há tempos na vida em que a fé amadurece no silêncio, no interior do coração, até que esteja pronta para se tornar testemunho. A Quaresma é também esse tempo de maturação interior, em que o coração aprende a confiar antes de compreender plenamente.
Ao longo deste caminho quaresmal, a Transfiguração nos lembra que a cruz não é o fim, mas a passagem. Que a luz não elimina a noite, mas a ilumina por dentro. Que Deus não nos poupa da travessia, mas caminha conosco.
Que esta Quaresma nos ajude a subir ao monte com Jesus, a escutá-lo com atenção sincera e a descer fortalecidos para viver o Evangelho no cotidiano. E que a luz contemplada na Transfiguração sustente nossa esperança até a alegria plena da Páscoa.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo Metropolitano de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB