“Pega na mentira, corta o rabo dela…”
Em 1981, Erasmo Carlos lançou uma canção na qual ironiza mentiras imaginadas e mentiras assimiladas pela nossa cultura. “Já gravei um disco voador; disse a Castro Alves seu valor; vi papai Noel numa favela; o Brasil não gosta de novela. Já não morre peixe, na lagoa; passa todo mundo no vestibular. Pega na mentira, pisa em cima, bate nela…”
Há dois mil anos atrás, para desacreditar o testemunho de mulheres que afirmavam que Jesus de Nazaré havia ressuscitado, os homens do templo subornaram os soldados romanos para que divulgassem uma mentira: “Digam que os discípulos deles foram à sepultura durante a noite e roubaram o corpo enquanto vocês dormiam” (Mateus 28, 13).
Em determinados ambientes, a mentira é vista como um ‘ativo’ importante. No mundo dos negócios, especialmente na publicidade, a mentira é geralmente considerada uma demonstração de esperteza, e a pessoa mentirosa é elogiada. A mentira deixa de ser vício e se reveste de virtude. A mentira adquire beleza, e ninguém pega ou corta o rabo dela.
Alguns anos atrás escutei descrente a afirmação de que iniciávamos a era da pós-verdade. Não imaginava o que nos esperava. Hoje, a mentira nos envolve por todos os lados, rebatizada com o nome de fake. Ela não frequenta mais apenas o mundo da publicidade; ela nos visita diariamente, entrando pela porta das redes e meios de comunicação social.
Separar o joio do trigo, ou melhor, distinguir o que é verdade e o que é mentira tornou-se um trabalho digno de Hércules. No mundo da política, a mentira tornou-se moeda corrente, e a verdade é sacrificada diariamente no altar do deus dos interesses. Acabamos quase acreditando que os candidatos querem se sacrificar pelo bem comum.
A mentira deixou de ser uma questão estrita à moral individual e passou a ser uma arma que mata reputações e pessoas. Se você duvida, ou considera minha afirmação exagerada, considere as razões e ‘verdades’ apresentadas pelos senhores da guerra (Trump, Putin, Netanyahu e caterva) para justifica-la. A mentira tornou-se arma letal e armadura de defesa. Por isso, urge chamar a mentira pelo nome, pisar e bater nela, cortar o rabo dela.
Para Jesus de Nazaré, quem mente reiteradamente transforma o mundo num mercado de negócios, é homicida e filho da mentira, do Inimigo, de Satã. Falando aos dirigentes do templo, ele ataca: “Vós tendes por pai o Diabo, e quereis fazer o que o vosso pai deseja. Ele era homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade. Quando fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira” (João 8,44).
+ Dom Itacir Brassiani, MSF
Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul