O professor reinventado

“Sede protagonistas duma “nova coreografia” que coloque no centro a pessoa humana, sede coreógrafos da dança da vida.”
(Papa Francisco)

 

A profissão docente é e sempre será uma profissão insuficiente, pois ampara-se no passado, no que já foi aprendido ou vivenciado, a fim de projetar o presente e o futuro. Ser professor exige estar disposto a se reinventar a cada passo, para que a palavra que diz não seja vazia e nem deslocada do contexto.

Em um belo texto, Rubem Alves propôs a fábula dos Urubus e Sabiás. Ocorre que nesta breve narrativa, o autor expõe a pretensão dos urubus em decidirem quem canta bem e pode ser reconhecido com um diploma conquistado de acordo com as regras impostas justamente por quem não sabe cantar e não tem essa habilidade. Quem leciona sabe das pilhas de relatórios, documentos, comprovações e outras demandas inventadas por muitos que jamais pisaram em uma sala de aula, tirando o tempo precioso do exercício da criatividade, da interação e da pesquisa.

O domínio da teoria não é suficiente à práxis educativa: eis a conclusão da parábola que relatei.  Isto porque a verdadeira aprendizagem está ancorada na existência, com um pé na realidade. Nesse sentido, educa quem tem autoridade, a partir de sua própria práxis. O conhecimento é, assim, compartilhado e a busca pelo saber é estimulada. Ensinar exige paciência, repetição, estudo e busca de novas formas de inserção na cultura, que está em permanente mudança.

O bom professor reconhece sua insuficiência. Somos insuficientes, porque cada encontro, aula, situação pedagógica é inédita. Ainda que os contextos possam ser semelhantes, não há uma única aula que possa ser igual à outra. Aí encontra-se a beleza e a grandiosidade de dedicar-se à educação: não há rotina, nem repetição, nem monotonia na vida de quem se compromete em educar com qualidade e competência. Além disso, o professor aprende à medida em que busca novos métodos para ensinar e dispõe-se a atualizar os conhecimentos já consolidados.

Especialistas afirmam que são realizadas cerca de 200 novas descobertas científicas por dia e que teremos acesso a esses saberes em um prazo de 5 anos, o que indica um delay entre o que já sabemos e o que ainda nem imaginamos. Nessa lógica, podemos dizer que somos a espécie que sabe, mas somos muito mais a espécie que ainda tem muito a aprender.

Reinventar-nos implica, portanto, em tecer nova linguagem sobre o conhecimento, uma vez que nossa ignorância é maior do que nossa ciência. Costumo dizer aos estudantes que cada disciplina é apenas um aperitivo, talvez o umbral de um universo que pode abrir-se diante deles, caso desenvolvam interesse genuíno por aprender.

Vem a calhar a fala do Papa Francisco incentivando a juventude a deixar de olhar pela janela, para entrar na vida e assumi-la. Da mesma forma acredito que se faz necessário ajudá-los a deixar para trás o espírito de dependência (talvez de preguiça), para tornarem-se protagonistas de sua própria aprendizagem.

Conclui-se que a tarefa principal do educador neste século não consiste em transmitir saberes, mas em aguçar o espírito dos estudantes, para que sintam sede de aprender, sem perder de vista o aforismo de Toffler, ao profetizar que: “O analfabeto do século XXI não será o que não sabe ler, mas o que não quer aprender”.

 

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade
Coordenador da Comissão Episcopal da Educação e Cultura – CNBB Sul 3