Mudar para ser fiel: a conversão que renova a Igreja
Esta é a quinta edição da série especial de artigos na qual Dom Leomar Antônio Brustolin apresenta e aprofunda as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Aprovado durante a 62ª Assembleia Geral, realizada entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, o documento propõe os caminhos e prioridades que orientarão a missão evangelizadora da Igreja no país nos próximos anos.
Há uma palavra que atravessa toda a vida cristã e que as Diretrizes recolocam, com força, no centro da missão: conversão. Não como um peso, nem como cobrança, mas como caminho de vida. Converter-se não é perder algo, mas reencontrar o essencial.
Muitas vezes, pensamos a conversão apenas no nível pessoal: abandonar erros, corrigir atitudes, crescer na fé. Tudo isso é verdadeiro. Mas as Diretrizes nos convidam a ir além: falam também de uma conversão pastoral, isto é, de uma mudança no modo de ser Igreja. Isso é exigente, porque não se trata apenas de fazer melhor aquilo que sempre fizemos, mas de perguntar com coragem: o que fazemos ainda evangeliza?
Aproxima as pessoas de Jesus? Quando a resposta é não — ou já não mais — é preciso mudar.
A Igreja não muda por modismo. Muda para ser fiel: fiel a Jesus, fiel ao Evangelho, fiel à missão que recebeu. E essa missão é sempre a mesma: anunciar a todos o amor de Deus. As Diretrizes insistem que estamos vivendo uma mudança de época. Isso significa que as respostas de ontem nem sempre servem para hoje. As pessoas mudaram, as linguagens mudaram, os desafios mudaram. Permanecer igual pode significar, na prática, deixar de alcançar quem mais precisa.
Por isso, a conversão pastoral pede coragem. Coragem para rever estruturas, para simplificar processos, para abandonar o que já não gera vida. E, ao mesmo tempo, coragem para experimentar caminhos novos. Mas há um critério fundamental: tudo precisa nascer do Evangelho.
Não se trata de inventar uma Igreja diferente, mas de voltar à fonte. Olhar para Jesus e perguntar: como Ele evangelizava? Como se aproximava das pessoas? Como acolhia, como falava, como tocava a vida dos outros?
Jesus não esperava que as pessoas viessem até Ele. Ele ia ao encontro. Entrava nas casas, sentava-se à mesa, caminhava com os que estavam perdidos. Sua presença despertava perguntas, gerava confiança, transformava vidas.
Essa é a conversão que as Diretrizes pedem: passar de uma Igreja centrada em si mesma para uma Igreja em saída. Isso implica também uma mudança de mentalidade: sair da lógica da conservação — apenas manter o que já existe — para assumir a lógica da missão — ir ao encontro de quem ainda não encontrou Jesus.
Outro aspecto importante é a conversão das relações. Não basta mudar estruturas externas. É preciso renovar o modo como nos tratamos, como trabalhamos juntos, como acolhemos as pessoas. Uma Igreja que fala de amor precisa viver o amor.
A conversão, portanto, é sempre um processo. Não acontece de uma vez. É um caminho que se faz dia a dia, na escuta da Palavra, na oração e na vida comunitária. E aqui está a beleza: não caminhamos sozinhos. O Espírito Santo conduz a Igreja. Ele renova, inspira, fortalece.
No fundo, converter-se é confiar: confiar que Deus continua agindo e que nos chama a colaborar com sua obra. A pergunta que as Diretrizes nos deixam é direta e necessária: o que precisamos mudar hoje para sermos mais fiéis a Jesus?
Responder a essa pergunta é dar um passo decisivo na missão. Porque, quando a Igreja se converte, ela se renova. E quando se renova, volta a gerar vida.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB