Os caminhos da Missão: Palavra, Fé, Comunidade, Liturgia e Caridade

Esta é a sexta edição da série especial de artigos, na qual Dom Leomar Antônio Brustolin apresenta e aprofunda as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Aprovado durante a 62ª Assembleia Geral, realizada entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, o documento propõe os caminhos e prioridades que orientarão a missão evangelizadora da Igreja no país nos próximos anos.

 

A Palavra de Deus

Quando a Palavra de Deus ocupa o centro, a vida da Igreja reencontra seu vigor mais profundo. Não se trata apenas de ler mais a Bíblia, mas de deixar-se ler por ela. A Palavra não é um texto antigo: é voz viva de Deus, que atravessa a história, ilumina a realidade e converte o coração.

Quando a comunidade escuta a Palavra, aprende a discernir, a escolher melhor, a caminhar com mais clareza. Mas há um passo essencial: passar da escuta ao anúncio. A Palavra não é recebida para permanecer guardada; ela precisa ser partilhada, explicada, testemunhada.

É aqui que se manifesta o Querigma: o anúncio de Jesus Cristo, Palavra viva do Pai, morto e ressuscitado para a salvação de todos. Uma comunidade centrada na Palavra não se perde em opiniões passageiras, polarizações ou disputas estéreis. Ela se deixa conduzir por Deus, aprende a ver o mundo com olhos de fé e a agir com esperança.

Iniciar na Fé

Durante muito tempo, a catequese foi compreendida sobretudo como transmissão de conteúdos. Hoje, porém, a Igreja reconhece que isso, embora importante, não basta. As Diretrizes propõem um caminho mais profundo: a iniciação à vida cristã.

Iniciar na fé significa conduzir a pessoa a uma experiência real de encontro com Jesus. Não apenas saber algo sobre Ele, mas encontá-lo, conhecê-lo, segui-lo e configurar a própria vida ao seu Evangelho.

A inspiração catecumenal nos ajuda a compreender esse caminho. A fé amadurece em etapas, em escuta, em convivência, em oração, em celebração e em compromisso. E uma caminhada, não um ato isolado. Tudo começa com o Querigma: o anúncio de que Deus ama, salva, chama e envia.

E aqui está uma verdade fundamental: ninguém nasce cristão pronto. Todos precisamos de um caminho, a fé precisa ser acolhida, cultivada, acompanhada e amadurecida em comunidade.

Comunidades vivas

A fé não cresce sozinha. Ela precisa de um lugar, de um ambiente e de relações concretas. Por isso, as Diretrizes insistem na importância das pequenas comunidades. A comunidade é o lugar onde a pessoa deixa ser anônima e passar a ser reconhecida pelo nome; onde pode partilhar sua vida, suas alegrias, suas dores e suas esperanças; onde a fé deixa de ser apenas discursos e se torna experiência concreta.

Essas comunidades não substituem a paróquia; ao contrário, revelam sua vitalidade e a tornam mais próxima da vida do povo. São como células que mantêm o eclesial corpo ativo, missionários e sensível às realidades do território.

Nelas, a Palavra é escutada, a oração é vivida, a fraternidade é construída e a caridade se torna prática.

 

Celebrar para viver

A liturgia não é um momento isolado da vida cristã. Ela é o seu centro, fonte e cume da existência e da missão da Igreja. É ali que a fé é celebrada, alimentada e renovada. Mas, para que isso aconteça, é necessário redescobrir seu sentido profundo.

A liturgia não é um rito vazio, nem um espetáculo. É encontro com Cristo vivo. Na celebração, ouvimos a Palavra, partilhamos a Eucaristia e somos chamados a nos tornar aquilo que celebramos: Corpo de Cristo no mundo, presença de comunhão, serviço e esperança.

A comunidade reunida torna-se sinal visível da presença de Deus. Por isso, as Diretrizes nos convidam a cuidar da liturgia com mais atenção:
beleza, participação, silêncio, sentido. Tudo isso ajuda a entrar no mistério.

Quando bem vivida, a liturgia transforma. Dá sentido à vida. Fortalece a esperança. Sustenta a missão.

 

Caridade: o amor que se torna visível

A missão da Igreja se completa na caridade. O amor que é proclamado precisa tornar-se concreto. As Diretrizes são claras: servir à vida plena para todos faz parte da evangelização.

Não é algo secundário. É expressão da fé. Quando a Igreja cuida dos pobres, acolhe os feridos, promove a dignidade humana, combate o aborto, ela está anunciando o Evangelho de forma concreta.

Em um mundo marcado por desigualdades, a caridade se torna ainda mais urgente. Não apenas como assistência, mas como compromisso com a justiça e a vida. Aqui está um ponto essencial: não há verdadeiro Querigma sem caridade. Porque o Deus que anunciamos é amor.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB