A Copa da paz: quando o esporte se torna linguagem de esperança
Em tempos marcados por guerras, divisões, intolerâncias e feridas abertas entre povos e nações, um evento esportivo pode parecer algo pequeno diante dos grandes desafios da humanidade. No entanto, o esporte possui uma força singular: é capaz de reunir pessoas, culturas, línguas e histórias diferentes em torno de uma experiência comum. Por isso, a Copa do Mundo pode ser contemplada também como um sinal de esperança, um convite a sonhar e a trabalhar por um mundo mais fraterno, reconciliado e justo.
A Igreja sempre reconheceu o valor humano, educativo e social do esporte. São João Paulo II afirmava que o esporte é uma verdadeira “escola de virtudes”, capaz de educar para a disciplina, a solidariedade, o respeito e a amizade. Bento XVI recordava que a atividade esportiva ajuda a superar barreiras culturais e linguísticas, favorecendo o encontro entre os povos. Já o Papa Francisco ensinou que o esporte possui a capacidade de construir pontes onde muitos erguem muros, tornando-se instrumento de paz, fraternidade e cultura do encontro.
Também o Papa Leão XIV tem insistido na necessidade do diálogo e da construção paciente da paz. Em uma de suas recentes manifestações, pediu que os povos tenham “o coração aberto ao diálogo” e trabalhem pela fraternidade entre as nações. Ao falar sobre futebol, em sua visita à Espanha, recordou que o Papa deve ser “de todos os times”, uma expressão simples, mas profundamente simbólica: acima das rivalidades, das cores e das bandeiras, existe uma pertença maior, que nos irmana como membros da única família humana.
O futebol é uma das mais belas metáforas da vida. A bola que corre pelo campo recorda os sonhos que carregamos no coração e que nunca devem permanecer parados. O gol aponta para os horizontes que buscamos alcançar, fruto de perseverança, esforço, esperança e confiança. Os jogadores nos ensinam que ninguém constrói uma vitória sozinho; é preciso confiar, colaborar e colocar os talentos pessoais a serviço da equipe. E a torcida, com sua paixão e seu entusiasmo, lembra-nos que o ser humano precisa caminhar acompanhado, sustentado pelo incentivo e pela presença dos outros.
Quando a bola rola, não se movimenta apenas um jogo: movimentam-se emoções, memórias, pertencimentos e esperanças. Por isso, o futebol continua sendo uma linguagem universal capaz de unir pessoas diferentes em torno da alegria de sonhar, lutar e celebrar juntas.
O esporte nos ensina que adversário não é inimigo. Ensina que regras existem para proteger a convivência. Ensina que a vitória só tem verdadeiro valor quando é alcançada com honestidade. Ensina, sobretudo, que ninguém vence sozinho.
Num mundo que frequentemente transforma diferenças em conflitos, a Copa nos recorda que é possível competir sem destruir, divergir sem odiar e celebrar sem excluir. Que cada partida seja, portanto, um convite a reconhecer no outro não um rival a ser vencido, mas um irmão com quem partilhamos o mesmo campo da existência.
A esperança nasce quando aprendemos a jogar juntos. E a paz começa quando descobrimos que pertencemos à mesma equipe: a família humana, sonhada e amada por Deus.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB