Os avós: memória viva da esperança

Todos os anos, ao celebrarmos Santa Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e avós de Jesus segundo a antiga tradição cristã, testemunhada também em escritos apócrifos, a Igreja nos convida também a celebrar o Dia dos Avós. Não se trata apenas de uma homenagem afetiva, mas do reconhecimento de uma vocação preciosa na vida das famílias, da Igreja e da sociedade.

Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco recorda que os idosos são a memória viva de um povo e de uma família. Eles não representam apenas o passado, com sua presença, suas histórias e seus testemunhos, ajudam a iluminar o presente e a preparar o futuro. Sem raízes, não há frutos; sem memória, não há identidade. Por isso, afirma que “a atenção aos avós faz a diferença na qualidade humana de uma sociedade”.

Os avós ocupam um lugar singular na transmissão da fé. Muitas pessoas aprenderam as primeiras orações no colo da avó ou receberam do avô os exemplos mais simples e profundos da confiança em Deus. Antes mesmo das palavras da catequese, foi muitas vezes o testemunho silencioso dos mais velhos que relevou a beleza de uma vida sustentada pela fé. Com eles, aprendemos o valor da honestidade, da solidariedade, do trabalho, da perseverança e da esperança.

A própria história da salvação revela a importância das gerações. Deus estabeleceu alianças que atravessam séculos, famílias e povos. A fé bíblica nunca é vivida de forma isolada; ela é transmitida de pais para filhos e de avós para netos. O que Ana e Joaquim representam para Maria, e o que Maria representa para Jesus, recorda-nos que Deus gosta de agir por meio dos vínculos familiares e da humilde continuidade entre as gerações.

Nos últimos anos, o Papa Francisco insistiu repetidamente que um povo que abandona seus idosos perde a própria memória. Os avós são guardiões de histórias, valores e experiências que nenhuma tecnologia pode substituir. Eles carregam as marcas das lutas enfrentadas, das crises superadas e das graças recebidas. Sua autoridade não nasce do poder, mas da fidelidade; não vem da imposição, mas de uma vida atravessada pelo tempo, pelo sofrimento e pela esperança.

O Papa Leão XIV também tem retomado esse horizonte, recordando a importância de cultivar a esperança entre as gerações. Uma sociedade verdadeiramente humana não se constrói apenas pela inovação, mas também pela sabedoria acumulada. Os jovens trazem o vigor dos sonhos; os idosos oferecem a profundidade da experiência. Quando essas riquezas se encontram, nasce uma cultura capaz de olhar para o futuro sem perder suas raízes.

Num mundo marcado pela rapidez, pela impaciência e pela cultura do descartável, os avós nos recordam que a vida amadurece lentamente. São como árvores antigas, cujas raízes profundas sustentam a terra: talvez não cresçam em altura, mas continuam oferecendo sombra, abrigo e frutos de sabedoria a todos os que se aproximam.

Celebrar os avós é agradecer a Deus por aqueles que mantêm acesa a chama da memória, da fé e da esperança. É reconhecer que cada família possui um tesouro precioso em seus idosos. É também o renovar o compromisso de não os deixar entregues à solidão, ao esquecimento ou à indiferença.

Uma sociedade será tanto mais humana quanto mais souber acolher, escutar e honrar aqueles que lhe transmitiram a vida, a história e a fé. Ao aproximarmos jovens e idosos, não preservamos apenas as lembranças do passado: abrimos caminhos para que a esperança continue sendo transmitida de geração em geração.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB