O sentido de ser professor

“Ousa alcançar teu centro, não permitas que os outros te determinem.”
Anselm Grün

 

O poeta entoou com simplicidade o desafio de nos lançarmos na árdua tarefa de mudar a nós mesmos. “É tempo de travessia…de abandonar as roupas usadas.” Desfazer hábitos, deixar de lado ideias que não cabem mais na gente pode ser libertador.

Os teóricos da pedagogia têm falado constantemente em ‘refazer identidades’, pois o mundo mudou e está em permanente transformação. A medida em que amadurecemos, vamos deixando para trás as cascas que nos envolvem, para vivermos com mais leveza e autonomia.
Como todos os demais humanos que habitam este planeta, nós-educadores/as- somos atravessados por contradições, indecisões, angústias e desejos. Quanto mais avançamos na estrada a vida, mais distantes parecemos estar das motivações que nos induziram a ser quem somos e a andar por este ou aquele caminho. É preciso, porém, perguntar-se a cada passo: quais motivos ainda me mantém na jornada que um dia escolhi percorrer?

Nossa cultura ensinou-nos (e continua ensinando) a desenvolver personalidades que agradem a todos, ainda que isso se torne para nós sofrimento psíquico. São as famosas ‘persona’: papeis sociais que desempenhamos, quando não máscaras que convém utilizar, a fim de que todos nos admirem e se agradem de nós. É preciso ter cuidado, pois quem vive apenas para agradar os outros, passa a vida resolvendo problemas, dando jeitinhos, esvazia-se e perde-se de si mesmo.

Dentre as coisas que só eu posso fazer por mim está a busca pelo sentido. A força da existência encontra-se em elevar-se acima das contingências, para não se perder no secundário. Ao contrário da resposta do Gato a Alice, é preciso entender que aos que sabem aonde desejam ir, nem todo caminho serve.

A pergunta principal não vem de fora, vem de dentro de nós: o que buscamos, o que oferecemos, o que temos feito por aqueles com quem convivemos dentro e fora da sala de aula e em que medida esta profissão que escolhemos tem nos oferecido motivos para continuar? Ser professor me realiza? Para não nos abandonarmos à medida dos valores atuais, que validam as profissões de acordo com o contracheque mensal, é necessário começar por nós o processo de ressignificação, de valorização e de investigação dos mecanismos de marginalização da profissão docente no quadro de possibilidades apresentado às novas gerações.

No santuário interior, onde só nós podemos ver e ouvir as motivações que pulsam em nós, cumpre-nos a corajosa tarefa de reencontrar-nos com nossos ideais. Talvez os ventos tenham nos levado a lugares não planejados, a condições não esperadas -ou não desejadas- isso também deve ser integrado em nós como parte fundamental da nossa história pessoal. Como bem diz o jargão: não posso mudar o passado, mas tenho condições de fazer um novo presente e um novo futuro.

A opção pela docência é quase uma profecia diante de um mundo que tem esquecido de muitas coisas, até mesmo daquelas que nos constituem como humanidade. Phillip Kottler afirmou em sua obra magistral Marketing 7.0 que nenhum aplicativo poderá substituir a verdade de uma palavra dita olho no olho, frente a frente. Assim como nenhuma máquina ou Inteligência Artificial será capaz de tomar o lugar de um educador atencioso, bondoso e capaz de ofertar a generosa presença a tantos e tantas que, neste exato momento, habitam lares que parecem pensões, abandonados afetiva e humanamente por quem teria o dever de orientá-los e acompanhá-los no processo de amadurecimento humano. Aos que pensam em desistir: ânimo! Ainda há muito sentido em ser quem somos.

 

Prof. Dr. Pe. Rogério Ferraz de Andrade
Coordenador da Comissão para a Cultura e Educação do Regional Sul 3 da CNBB