Daniel: a fé diante dos novos leões
Talvez a imagem mais inquietante de Daniel na cova dos leões não sejam os leões. É a janela aberta. Daniel sabe que existe um decreto proibindo sua oração. Sabe também que seus adversários esperam encontrá-lo justamente ali. Mesmo assim, volta para casa, abre a janela em direção a Jerusalém e reza como fazia todos os dias. Ele não permite que o medo abafe sua relação com Deus.
A oração estava tão integrada à sua vida que os inimigos sabiam exatamente onde encontrá-lo. Sua fidelidade tinha endereço, hora e constância. Essa é uma das perguntas mais fortes que o Livro de Daniel dirige aos cristãos de hoje: onde nos encontrariam se quisessem encontrar sinais concretos de nossa fé?
As covas mudaram de lugar. Também os leões. Hoje, muitas vezes, não têm dentes nem rugem. Podem assumir a forma da pressão para pensar como todos pensam, da conveniência de permanecer calado, do medo de perder prestígio, da necessidade de aprovação ou da sedução de uma vida na qual Deus vai, pouco a pouco, tornando-se dispensável. Há ainda leões mais discretos: a inveja, a difamação e a manipulação da verdade.
Daniel é atacado também por ser estrangeiro e exilado. Quando não encontram falhas em sua administração, seus adversários transformam sua identidade e sua fé em motivo de suspeita. Há algo muito atual nisso. Nem toda perseguição começa com violência. Às vezes, começa pela construção de uma narrativa destinada a tornar alguém suspeito. A lei feita “sob medida” contra Daniel mostra como até aquilo que deveria proteger a justiça pode ser manipulado quando colocado a serviço de interesses particulares.
Daniel, porém, permanece livre. O homem lançado na cova é mais livre que o rei no palácio. O rei Dario passa a noite sem dormir; Daniel atravessa a noite sustentado por Deus. Um está cercado pelas consequências de suas escolhas; o outro, cercado pelos leões, conserva a paz. Eis um dos paradoxos da fé: podem aprisionar o corpo sem conseguir aprisionar o coração. A verdadeira liberdade não depende apenas das circunstâncias externas. Nasce de um coração que sabe a quem pertence.
Isso ajuda a compreender a fé em nosso tempo. Ser cristão não significa procurar conflitos, nem transformar cada diferença cultural em perseguição religiosa. Daniel vive dentro de outra cultura, exerce função pública e serve com competência. Sua fidelidade não gera isolamento. Ele sabe conviver sem diluir aquilo em que crê. O limite aparece quando lhe exigem entregar aquilo que pertence somente a Deus. Então ele permanece de pé — ou, mais precisamente, permanece de joelhos
E justamente aí acontece o inesperado. A cova, destinada a silenciar Daniel, torna-se lugar de revelação. O rei que havia permitido sua condenação corre ao amanhecer e pergunta se o “Deus vivo” conseguira salvá-lo. O testemunho do fiel começa a transformar o olhar daquele que estava fora da fé. A missão acontece sem propaganda, sem imposição nem espetáculo: Daniel não vence Dario numa discussão; sua fidelidade permite que Dario faça uma pergunta sobre Deus.
Para o cristão, a imagem vai ainda mais longe. À luz de Cristo, é possível reconhecer em Daniel uma figura que antecipa alguns traços da paixão: ambos são entregues por inveja; não se encontra culpa neles; a autoridade percebe a injustiça, mas cede à pressão; uma pedra é colocada e selada pelo poder; e, quando parecia que tudo havia terminado, a vida triunfa.
Portanto, não precisamos viver procurando leões; precisamos cuidar da janela. Enquanto ela permanecer aberta para Deus, haverá em nós uma liberdade que nenhum poder humano consegue conceder nem retirar. É pela janela da oração que o coração continua voltado para Deus, mesmo quando ao redor se fecha a cova.
E quando chegar alguma noite, a fé saberá que a cova nunca pertence definitivamente aos leões. Deus também sabe entrar nela. E onde Deus entra, nem mesmo a noite tem a última palavra.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB