Daniel, uma pastoral que enxerga no escuro

O livro de Daniel foi escrito para que um povo ameaçado não perdesse a capacidade de esperar. Há momentos em que a missão da Igreja não consiste em oferecer respostas rápidas, mas em ajudar as pessoas a enxergarem além daquilo que estão vivendo. A linguagem apocalíptica faz exatamente isso: retira o véu da aparência e proclama que a história não está abandonada às forças que parecem dominá-la.

Daniel vive em terra estrangeira, conhece outra cultura, atua em estruturas de poder que não compartilham sua fé e, ainda assim, conserva aberta a janela pela qual reza voltado para Jerusalém. A Igreja também precisa saber viver assim: profundamente inserida no tempo presente, dialogando com suas linguagens e perguntas, sem fechar a janela que a mantém voltada para Deus. Nem isolamento, nem dissolução. Presença fiel.

Daniel descreve poderes que se animalizam quando transformam domínio, violência e arrogância em critérios de governo. Pastoralmente, isso exige discernimento. Nem tudo o que cresce é Reino de Deus; nem tudo o que impressiona é sinal de vitalidade; nem todo poder é autoridade. A comunidade cristã precisa perguntar constantemente se suas relações, decisões e estruturas refletem o rosto o Filho do Homem ou reproduzem, ainda que discretamente, a lógica das feras.

Daniel inspira igualmente uma pastoral capaz de permanecer na noite. Nossa sociedade tem pouca paciência com processos longos. Queremos soluções imediatas para crises familiares, para o sofrimento e a violência, para a diminuição da participação comunitária e para as dificuldades na transmissão da fé. Daniel recorda que existem noites que precisam ser atravessadas. Esperança cristã não consiste em imaginar que tudo se resolverá rapidamente. Consiste em continuar caminhando porque sabemos que a última palavra pertence a Deus.

Por isso, precisamos também recuperar uma pastoral da eternidade. Muitas vezes, falamos bastante sobre como viver melhor e pouco sobre o horizonte último da existência. Daniel ousa falar de ressurreição, julgamento e vida eterna. A fé cristã não oferece apenas recursos para suportar esta vida; anuncia que a existência humana é chamada a atravessar a própria morte. Uma pastoral que perde o horizonte da eternidade corre o risco de reduzir o Evangelho à ética, à assistência ou à busca de bem-estar. Cuidamos da vida presente justamente porque cremos que cada pessoa possui uma dignidade destinada que a morte não pode anular e uma vocação à comunhão eterna com Deus.

Há ainda algo muito bonito.  Daniel não evangeliza pela força. Sua fidelidade interroga reis, adversários e pessoas que não compartilham sua fé. Em uma cultura cansada de discursos, talvez o anúncio mais fecundo seja o testemunho de uma comunidade cuja maneira de viver desperte perguntas: por que cuidam dos pobres? Por que não respondem ao ódio com ódio? Por que continuam unidos? Por que ainda esperam? Urge encontrar cristãos cuja maneira de viver seja capaz de tornar Deus novamente uma pergunta para o nosso tempo.

Daniel nos oferece uma pastoral do amanhecer. A cova não é o último lugar de Daniel. A perseguição não encerra sua história. Os impérios não possuem a palavra definitiva, e nem mesmo a morte estabelece os limites do poder de Deus. Daniel alimentou a esperança no Reino indestrutível, na ressurreição e na vitória definitiva de Deus, esperança que os cristãos leem e compreendem à luz de Cristo.

Daniel, assim, ensina-nos a esperar sem fugir da realidade: ter os pés dentro da história, os olhos atentos aos sofrimentos humanos e o coração voltado para o Reino. Porque uma Igreja missionária é aquela que, mesmo quando todos enxergam apenas a noite, já é capaz de discernir os primeiros sinais do amanhecer.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB