O cristão diante das urnas

As eleições são um momento importante da vida democrática. Nelas, diferentes projetos para o país são apresentados ao discernimento dos cidadãos. Para o cristão, participar desse processo não é apenas exercer um direito, mas assumir uma responsabilidade. A fé não determina automaticamente uma escolha eleitoral, mas ilumina a consciência para que ela procure, com liberdade e prudência, aquilo que melhor possa servir à dignidade humana e ao bem comum.

A primeira atitude cristã diante das eleições é a liberdade interior. Nenhum partido, candidato ou projeto político realiza plenamente o Evangelho. Também nenhum grupo deveria reivindicar para si a representação exclusiva dos cristãos. A Igreja não pertence a governos, partidos ou ideologias: ela atravessa os tempos porque sua missão é anunciar Jesus Cristo, testemunhar o Evangelho e servir à pessoa humana. Por isso, o cristão pode fazer escolhas políticas diferentes de outros cristãos e, ainda assim, permanecer unidos pela mesma fé.

Isso não significa que todas as propostas sejam equivalentes nem que o cristão possa renunciar ao discernimento moral. É necessário prioriza discernir. A tradição cristã oferece critérios importantes: a dignidade de toda pessoa humana, a defesa da vida desde a concepção até o seu fim natural; o cuidado com a família; a justiça social; o trabalho digno; a atenção aos pobres e vulneráveis; a educação; a liberdade religiosa; o cuidado da criação; a promoção da paz e a busca do bem comum.

Igualmente é justo considerar a trajetória daqueles que se apresentam para governar. A política necessita de competência, capacidade administrativa, honestidade, responsabilidade e disposição para o diálogo. Nenhum candidato será perfeito. O discernimento político acontece justamente diante de alternativas concretas, com suas possibilidades e limitações. Por isso, a consciência cristã deve evitar tanto a idealização quanto a demonização das pessoas.

Há ainda uma responsabilidade nova em nosso tempo: cuidar da verdade. As redes sociais tornaram cada cidadão também transmissor de informações. Antes de compartilhar uma acusação ou notícia, é preciso verificar sua procedência.  Para o cristão, a verdade não muda conforme nossa preferência eleitoral. O que é falso continua falso quando beneficia o candidato de quem gostamos; o que é verdadeiro não deixa de sê-lo quando nos desagrada. Não podemos exigir honestidade dos outros e permitir a mentira quando ela favorece nossas preferências. A consciência cristã não pode ter dois pesos e duas medidas.

A eleição também não deveria romper a convivência social. Divergências são legítimas e necessárias numa democracia. Podemos discordar sobre economia, políticas públicas, prioridades e caminhos para o país. O outro, porém, continua sendo nosso próximo. Antes, durante e depois das eleições, permanece sobre nós o mandamento do amor ao próximo. Nenhuma vitória eleitoral vale a perda da fraternidade.

Precisamos chegar às eleições de 2026 com mais serenidade e responsabilidade: escutar propostas diferentes, conhecer programas, examinar realizações anteriores, comparar informações, distinguir promessas de possibilidades reais e, sobretudo, pensar para além dos próprios interesses. O voto cristão não pergunta somente: “o que será melhor para mim?”, mas também: “o que poderá contribuir mais para uma sociedade justa, pacífica e solidária?”

A Igreja não existe para escolher governantes no lugar dos cidadãos. Sua tarefa é ajudar a formar homens e mulheres capazes de decidir responsavelmente diante de Deus e da própria consciência.  Em 2026, portanto, não precisamos de uma fé transformada em partido, nem de uma política transformada em religião. Precisamos de cristãos livres, conscientes, coerentes e responsáveis, capazes de votar sem idolatrar pessoas, sem transformar adversários em inimigos, sem desprezar quem escolhe diferente e sem renunciar às próprias convicções. As eleições passam. O Evangelho permanece. E, depois de contados os votos, continuará diante de nós a tarefa maior: construir juntos o Brasil que compartilhamos.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB