A necessária leitura de mundo

A dependência total das telas está reconfigurando nossa forma de existir e de nos posicionarmos no mundo. De um lado, temos acesso a tudo e a todos num instante. De outro, somos encapsulados pelo algoritmo fechando-nos em um circuito mental que não ousa pensar diferente, sem tempo para questionar o que vemos e ouvimos. Estamos perdendo a capacidade de ler o mundo com nossos olhos.

Estudos têm demonstrado as consequências catastróficas de deixar uma criança exposta diante das telas, durante várias horas ao dia.  Muitas são as transformações que estão ocorrendo em âmbito neuronal, de comportamento e de perspectivas diante da própria existência. Aliado a isso, a tendência da medicalização da vida, na ânsia de extirpar a dor, o sofrimento e a frustração têm causado mais alienação e ilusão diante da existência, incapacitando as novas gerações para a superação dos contextos desafiadores que o mundo real nos apresenta.

A construção da individualidade, o desenvolvimento da personalidade do sujeito, bem como a formação de um pensamento singular estão cedendo espaço para a superficialidade e o vazio. Adolescentes (e não apenas eles) não têm mais tempo para refletir, analisar, tomar decisões e projetar a existência. Perdeu-se a qualidade das relações, e já se fala até mesmo em relações transorgânicas, ou seja, novos formatos de experiência repaginando a ecologia das relações, que agora são mediadas e orientadas pela inteligência artificial.

“Uma vida baseada no celular rebaixa as pessoas, muda a forma como sentimos e nos relacionamos e contraria o que pesquisadores provaram contribuir para a felicidade”. Essa afirmação, retirada do livro Sentir em Redes, publicado pela Editora Paulus, está contemplada nas explicações de Máximo Di Felice, que informa sobre o que está acontecendo conosco, sem nos darmos conta.

A rapidez dos vídeos, a multiplicidade de temas, a superficialidade com que são tratados os assuntos simulam a ideia de conhecimento, quando na verdade tratam-se apenas de estimulações prejudiciais ao desenvolvimento equilibrado de crianças e adolescentes, que já não distinguem mais o que é real e o que é virtual, além de outros custos.  A ilusão de proteger os filhos tem, em contrapartida, exposto as novas gerações a conteúdos e acessos aos quais ainda não detêm maturidade para julgar e discernir sobre o que fazer com eles.

O resultado de tudo isso, de acordo com Daniel Becker, em A infância sequestrada pelas telas, são “[…] crianças inseguras, com baixa autoestima, com dificuldade de decidir, que não persistem, que têm dificuldades de relacionamento e que acabam com problemas de saúde emocional e mental na vida adulta.”

A Câmara Brasileira do Livro publicou que 84% dos brasileiros não comprou nenhum livro nos últimos 12 meses. As redes sociais estão roubando milhões de leitores e, com isso, aprisionando o presente e o futuro de tantos mergulhados na circularidade de publicações que não contribuem em nada para o crescimento pessoal, o amadurecimento humano e o pensamento crítico diante da realidade. Uma boa medida foi a proibição dos celulares nas escolas. Já há evidências de melhoria na atenção dos alunos, na diminuição de problemas disciplinares e também no que diz respeito aos resultados da aprendizagem.

Há, porém, muito a ser feito. Enquanto não decidirmos entre a facilidade de viver sem a intromissão das crianças e adolescentes em nossas vidas – pois enquanto estão no celular não causam problemas – e a árdua tarefa de dedicar tempo a eles, estimulando o brincar, o conversar, contar histórias e viver a vida do mundo real, continuaremos reféns das telas que muito sutilmente vão desenhando um futuro de apatia, omissão e confusão diante da vida e roubando o presente e o futuro das gerações que aí estão.

É importante para os mais novos saber ler o mundo ao seu redor. Aos adultos também. Afinal, como disse Willian James: “A arte de ser sábio é a arte de saber o que ignorar.” Resta-nos responder: até quando vamos ignorar as demandas que nos estão sendo colocadas, a fim de enfrentar com coragem a questão do uso das redes sociais e dos celulares. Talvez os moços e moças que aí estão apenas estejam repetindo nossos comportamentos, uma vez que muitos de nós também temos vivido quase que na dependência das telas o dia todo e todos os dias.

 

Prof. Dr. Pe. Rogério Ferraz de Andrade
Coordenador da Comissão para a Cultura e Educação do Regional Sul 3 da CNBB