Artigos, Bispos › 05/03/2021

A Aliança de Deus com a humanidade

Neste 3º Domingo da Quaresma B, a Sagrada Liturgia nos apresenta na 1ª Leitura (Êxodo 20,1-17) um momento de fundamental importância para a história da Salvação. Trata-se da promulgação da Lei de Deus e da apresentação, por parte do Senhor, de um “Código da Aliança”, os 10 Mandamentos. Este Código tem um princípio fundamental: é algo querido por Deus para Seu Povo, para que sejam felizes, não caiam mais na escravidão e vivam como amigos de Deus.

Esta legislação não tem a mesma finalidade de muitas legislações humanas, que é a de oprimir e massacrar povos e nações. Ao contrário, é uma Lei de liberdade, uma fonte de bênçãos para aqueles que a acolhem com sinceridade e retidão de coração. Quem a cumpre com fidelidade será abençoado pelo Senhor. Acolher assim os Mandamentos é acolher o próprio Senhor.

Assim são os mandamentos de Deus, que aprendemos de cor, com palavras mais simples do que estão expressas na Sagrada Escritura. A facilidade de guardá-los na memória tem a intenção de nos fazer viver sob o domínio libertador desta Lei, que impede a quem a cumpre de se tornar escravo, seja de um falso Deus, seja dos demais, seja de si mesmo.

Jesus ratifica esta Lei, assume-a para si mesmo e para os seus seguidores, dando uma nova “marca”, um novo parâmetro para o seu cumprimento: Nosso Senhor supera a mentalidade judaica, que separava o cumprimento da Lei de Deus da vida concreta de cada dia. Nosso Senhor ensina a fidelidade a esta Lei a partir da interioridade, para libertar quem a cumpre de todo o formalismo, trazendo-o de novo para o âmbito do amor. Não basta só cumprir formalmente a Lei de Deus, mas é preciso cumpri-la acolhendo-a na própria alma como uma luz orientadora da própria vida. Em um único mandamento: “Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo”, Jesus sintetiza nisto toda a Lei de Deus e o seu cumprimento. Acolher a Lei, para Jesus, significa acolher o próprio Deus.

O alerta da Liturgia deste Domingo vai também em direção a um risco grave ao qual todos nós estamos expostos, que é o do farisaísmo. Quem reduz sua vida cristã a uma apressada participação na Santa Missa Dominical, ou a uma tradicional Novena e Festa de um determinado Padroeiro, abafa em si a possibilidade de uma vivência cristã mais comprometida, mais frutuosa. Há aqueles que são capazes de atos heroicos no que diz respeito à fé uma vez ao ano, mas que depois voltam a uma esclerosada vida cristã rotineira, sem esforços e sem compromissos. Jesus ensina-nos que o cumprimento da Lei de Deus é, antes de tudo, a exigência de um compromisso constante de amor. Nunca teremos dado o suficiente a Deus, pois o amor sempre pede mais. E Jesus é o Amor dos amores! Ele merece sempre mais de nossa parte.

Neste período quaresmal, é tradicional também a busca da confissão sacramental a partir de uma consciência de que devemos nos reconciliar com Deus e com os irmãos. Tal princípio é muito saudável, mas é preciso superar o formalismo da religião que se contenta com uma confissão anual, e passar para uma nova dimensão de nossa vida religiosa: a de que este sacramento é uma fonte inesgotável de possibilidades de maior amor para com Deus e para com nossos irmãos.

Nossa vida de cristãos é chamada a ser uma vida na qual “pregamos Cristo crucificado” como nos diz São Paulo na 2ª Leitura (1ª Coríntios 1,22-25). Ele é a razão de nossa vida.

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen