A assunção: o destino glorioso da humanidade
A Solenidade da Assunção de Maria é uma das festas mais belas da fé cristã. Nela, a Igreja contempla a Virgem Maria elevada à glória do céu em corpo e alma. Contudo, essa celebração não fala apenas de Maria; fala também de nós. Ela revela o destino para o qual Deus criou todo ser humano e lança luz sobre o sentido último de nossa existência humana.
A fé cristã não considera o corpo uma prisão da alma, nem vê a salvação como uma fuga do mundo material. Desde o princípio, a Bíblia afirma que o ser humano foi criado como uma unidade de corpo e alma, chamado a viver em comunhão com Deus. Por isso, a redenção realizada por Cristo não alcança apenas uma dimensão espiritual da pessoa, mas a totalidade do seu ser.
Nesse horizonte, Maria ocupa um lugar singular. Aquela que gerou o Filho de Deus em seu ventre, que o acompanhou fielmente ao longo de sua vida e permaneceu junto à cruz e na ressurreição, é também a primeira criatura alcançada pela plenitude dos frutos da redenção de Cristo. O que esperamos receber na ressurreição final já resplandece nela de modo pleno.
O Concílio Vaticano II afirma que Maria “brilha diante do povo de Deus peregrino como sinal de esperança segura e de consolação” (Lumen Gentium, 68). Ela não está distante da humanidade; ao contrário, manifesta aquilo que a humanidade é chamada a ser. Na Assunção contemplamos uma mulher plenamente realizada segundo o projeto de Deus, introduzida na comunhão perfeita da Santíssima Trindade.
Sob a perspectiva da antropologia cristã, a Assunção proclama a dignidade extraordinária do ser humano. O corpo humano não é descartável nem destinado ao nada. Ele participa da vocação eterna da pessoa. Em Maria, Deus confirma que a história humana não termina no túmulo. Nada daquilo que é vivido no amor se perde diante de Deus: os gestos de entrega, as lágrimas e as esperanças encontram seu cumprimento na vida eterna.
Sob a perspectiva da escatologia cristã, Maria aparece como antecipação daquilo que a toda a Igreja espera. Ela é a primeira entre os redimidos a participar, em corpo e alma, da plenitude da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Aquilo que nela já aconteceu será concedido a todos os que forem unidos ao Senhor. Sua glorificação não é um privilégio isolado, mas um sinal e promessa daquilo que Deus prepara para toda a humanidade reconciliada com Ele.
Por isso, a Assunção não é apenas uma festa mariana; é uma celebração da esperança cristã. Num mundo marcado pela fragilidade, pela doença e pela morte, Maria nos recorda que nenhuma dessas realidades possui a última palavra sobre a existência humana. Nosso destino último não é a dissolução nem o esquecimento, mas a vida plena na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ao contemplarmos Maria elevada ao céu, vemos aquilo para o qual Deus chamou cada ser humano desde a criação. Nela, a humanidade alcança sua meta. Nela, a redenção mostra toda a sua força. Nela, a esperança cristã torna-se visível. E nela descobrimos que fomos criados não para a morte, mas para a glória; não para o fim, mas para a eternidade; não para a solidão, mas para a comunhão definitiva com a Trindade Santa.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB