Artigos, Bispos › 27/10/2020

A aurora

A vida humana e cristã pode ser comparada com um símbolo cotidiano: a aurora. São Gregório Magno (séc. VI) usa, de maneira apropriada, a imagem da aurora para falar da vida dos cristãos. Nós vivemos da esperança que logo mais, a luz virá. “Pois conduzida da noite da infidelidade à luz da fé, qual aurora depois das trevas, ela se abre para o dia com o esplendor da caridade celeste” (São Gregório Magno). De fato, o olhar sobre nossa vida, como batizados e iluminados por Cristo, nos fez abandonar as trevas do pecado e caminhar para a luz de Deus. Todos nós sabemos que o nosso batismo nos dá a condição de “criaturas novas”, porém, ainda não plenamente, pois “ainda não nos libertamos inteiramente das trevas” (São Gregório Magno). O símbolo da aurora indica o grande presente diário de Deus: o sol nascerá, já que “o sol nascente nos veio visitar” (Lc 1,78). Onde vive um batizado, um católico, aí está quem vive e anuncia uma esperança segura (cf. Rm 5,5), que já está neste mundo e que se completará na vida eterna.

A condição dos cristãos é viver como iluminados por Deus, mas ainda nas trevas de muitos erros. Viver olhando para frente, para o que nos espera. Existe uma motivação fundamental em tudo o que vivemos e fazemos. Este sentido da vida humana é que nos ajuda a elevarmos nosso olhar para o alto, para Deus e, a partir de Deus, para a realidade humana. Lembramos de São Paulo, que nos diz: “Para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro” (Fl 1,21). A vida humana não é um voltar-se sobre si, sobre sua vida. É um olhar para frente, para a promessa de Deus, vivendo a caridade com este olhar de Deus.

A celebração do dia de Finados, quando recordamos nossos antepassados, nos traz novamente esta questão do sentido da vida. Sim, nossa vida tem sentido. Olhemos para frente, para ver o que Deus, que nos ama infinitamente nos preparou: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Quem se sabe amado e acolhido por Deus na caminhada deste mundo, irá compreender melhor o significado do que nos espera. O catolicismo usa imagens para falar da vida eterna, em Deus. Não sabemos descrever, mas somente o que Jesus Cristo nos falou: o banquete, a casa, o abraço do Pai, o estar com Ele e a alegria sem fim. Nossa fé nos diz que nos aguarda um futuro feliz, com aquele que nos ama.

O rosto misericordioso de Deus é nosso caminho sempre. A aurora nos aponta para a concretude de rostos, divino e humano. Não são ideias que nos levam a Deus e nem para a vida eterna. As teorias e as ideias, por melhores que sejam, nunca nos salvam e nem conduzem à santidade. Nossa salvação vem da vida com sua fé e suas obras. Os evangelhos de Cristo trazem esta expectativa, recordando nosso agir cotidiano: “Eu estava com fome e me destes de comer” (Mt 25,31). Ao visitarmos o túmulo dos que já partiram, com todo seu significado antropológico, recordemos de dizer um “muito obrigado” pelo bem que fizeram para a humanidade e por nós. Recordemos também de nos perguntar sobre o modo de viver como eles viveram, sobretudo a vida dos santos e santas que a Igreja nos apresenta. Eles são modelos de vida misericordiosa e estão junto de Deus.

Somos felizes, porque caminhamos neste mundo, em meio a tantas contradições e dificuldades, mas carregamos conosco esta certeza de que logo mais passará a “aurora” e o sol radiante estará presente. Caminhamos na caridade, para os irmãos e para Deus!

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta