Artigos, Bispos › 03/09/2020

A corresponsabilidade no amor

A Palavra de Deus neste Domingo vem relembrar-nos que como cristãos, fazemos parte do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja, da qual somos membros vivos, por onde corre o sangue do Senhor. Não podemos nos alhear dos problemas dos irmãos; os problemas dos outros são também nossos problemas.

Tal como diz o profeta Ezequiel na primeira leitura (Ezequiel 33,7-9), todos nós somos constituídos profetas, todos nós somos sentinelas, responsáveis pelo destino dos nossos irmãos. Quem vê alguém comportar-se mal ou sofrer, não pode repetir a frase de Caim: “Por acaso sou eu o guarda do meu irmão” (Genesis 4, 9). Essa responsabilidade impõe o dever de advertir os irmãos quando erram e de ajudá-los quando necessitam.

Se acaso não se faz essa advertência, seja lá a razão com que se argumente, a nós serão pedidas contas pelo sangue desse irmão. É certo que ele pode fechar os ouvidos às advertências; mas já não poderá apresentar a Deus a desculpa de que não foi advertido caritativamente.

É vulgar contrair dividas. Devemos evitá-las. Uma, porém, é essencialmente cristã: amar a todos e sem exceção. Muitas coisas apresenta a Lei e todas elas explicitam o grande e fundamental mandamento: amar, amar sem exceção nem acepção. Amar quem mais distante esteja do amor, quem mais esteja carente de amor. E se o amor não existir, nenhum mandamento proporcionará a salvação.

Neste sentido, a correção fraterna que Jesus, no Evangelho de hoje (Mateus 18,15-20) nos ensina a fazer uma obra de misericórdia cristã quando ditada pelo amor. É necessária, é importante, tão importante como as outras obras de misericórdia que mandam vestir os nus, dar de comer a quem tem fome, ensinar os ignorantes, etc.

Como obra de misericórdia, a correção fraterna supõe o amor. O amor que fala claramente, chamando às coisas pelo nome próprio, dizendo sim quando é sim, e não quando é não. O amor que respeita as pessoas. O amor que não colabora com os que falam mal por trás dos irmãos. Amor que não pode calar-se e procura descobrir a melhor maneira de como falar. O amor que sempre se estenderá ao pecador, embora denuncie o pecado. Isto é a correção fraterna que Nosso Senhor nos ensina hoje, no Evangelho.

Esta caridade fraterna é também sacrifício. Dar o supérfluo ou interessar-se pelos irmãos nas horas livres em que nada mais há para fazer, isso não é caridade cristã. A caridade cristã é a tempo inteiro, ignora as horas e em todos encontra a Cristo.

A este mundo, importa proclamar a grande verdade: todos os mandamentos se resumem nestas palavras da 2ª Leitura deste Domingo: “Amarás ao próximo como a ti mesmo” (Romanos 13, 9), e que “quem ama o próximo cumpre a lei, pois a caridade é o pleno cumprimento da Lei” (Romanos 13, 8).

Os laços de unidade e caridade fraterna, estabelecidos entre os irmãos, tornam Cristo presente, porque quando dois ou três se amam e se reúnem em Seu nome, Ele estará sempre no meio deles (Mateus 18, 20). Só pelo amor se pode conquistar e salvar o mundo.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen